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sexta-feira, 16 de abril de 2021

Quinta de la Rosa LBV Port 2004. Le vin à la bouche!

 EN/PT

    A Late Bottled Vintage Port wine, bottled in 2008 and aged 17 years old (tasted in Jan2021).

    It's a very good example that an LBV Port can age very well in bottle for several years, the perfect example that some LBV's Port wines have a good ageing potential and gain complexity in bottle, especially those traditional style LBV's that are not filtered prior to bottling.

    It was bottled with a worthy solid cork stopper, a "full" or "driven" cork, as opposed to "bar top" cork stoppers that characterize the filtered modern style LBV Port wines.

What's left, the tasting notes and impressions...

    It was tasted at a "cellar temperature", i.e., slightly cooled at about 15 to 16ºC.

    And, yes, certainly it should have been decanted... but it was not, it was served with the necessary care and slow movements, until, at the end, the wine natural sediments began to appear and flow.

    It still kept an intense ruby color but with brown and brick colored tints on the brim. A good LBV Port wine in a good evolution phase (at its best stage?), the years in bottle refined it. It had a pleasant aromatic exuberance with predominante red fruit notes. With a good structure and harmonious, soft tannins, fine, flavor with notes of cherry, cherry jam, cranberry dried fruit, dried hibiscus, nice peppery. Delicate and with a good aromatic final intensity.


Quinta de la Rosa LBV Port 2004. Le vin à la boche!

    Um vinho do Porto LBV, Late Bottled Vintage, engarrafado em 2008, com 17 anos no momento da prova (Jan2021).

    É um bom exemplo de que um vinho do Porto LBV pode evoluír em garrafa durante vários anos,  a prova de que alguns LBV's têm um bom potencial de envelhecimento e ganhar complexidade com o estágio em garrafa, sobretudo quando se trata de LBV's de estilo tradicional, que não são sujeitos a filtragem prévia ao engarrafamento.

    Foi engarrafado com uma digna rolha de cortiça maciça "full" ou "driven cork" por oposição às rolhas "bar top" ou "stopper cork" que caracterizam os vinhos do Porto LBV filtrados de estilo moderno.

O que ficou, as impressões de prova...

    Foi provado à temperatura de cave, i.e., ligeiramente refrescado a uma temperatura de 15, 16ºC.
    E sim, com toda a certeza deveria ter sido decantado... mas não foi, foi antes servido com movimentos lentos e o cuidado necessário até, no final, começar a aparecer  o depósito natural do vinho.

    Com uma côr ruby ainda escura e intensa, mas com um anel com laivos acastanhados e atijolados. Um LBv numa boa fase de evolução (na sua melhor fase?), os anos em garrafa refinaram-no, com uma boa e agradável exuberância aromática, sobretudo com notas de frutos vermelhos. É um vinho harmonioso e com uma boa estrutura, com taninos macios, fino, sabor com notas de cereja e compota de cereja, frutos secos como arandos, hibiscos secos, bom apimentado. Delicado e com uma boa intensidade aromática final.   

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Douro, o relatório geral da vindima 2020

 Um ano com condições muito difíceis, atípico e desafiante

A verdade é que, no Douro não há dois anos iguais e não existe o que se possa considerar como um ano "normal".

Os lagares da Quinta do Passadouro, Vale de Mendiz, Vale do Pinhão.

    A vindima de 2019 terminou em meados do mês de Outubro, com a chegada das primeiras chuvas de Outono, que se prolongaram pelos meses de Novembro e Dezembro, que foram meses bastante chuvosos, facto importante para a reposição das reservas de água nos solos, depois de meses de seca e de nenhuma ou insuficiente precipitação.

    Em meados de Dezembro, tivemos um final de Outono com tempo chuvoso, chuva forte, persistente e intensa em toda a região demarcada do Douro, também no Douro Superior que em regra tem valores de precipitação mais baixos. A depressão "Elsa" e a chuva intensa provocaram a subida do nível das águas do rio Douro (que subiu 11 metros no cais da Régua), a zona ribeirinha da vila do Pinhão foi inundada e no vale da Vilariça, na foz do rio Sabor, houve terrenos agrícolas inundados.

    As temperaturas, em geral, mantiveram-se de acordo com os valores médios para esta época do ano.

Inverno

    O Inverno marca o início de um novo ciclo na vinha, as temperaturas baixam e as vinhas entram numa fase de repouso vegetativo, dormência e descanso - o silêncio impera nas vinhas nesta fase do ano. Com este ciclo começam também os trabalhos de renovação da vinha, a poda das videiras, determinante para o seu crescimento, desenvolvimento e para o resultado final da colheita, para a qualidade do vinho e mesmo para a longevidade das plantas.

    O final do ano e o início de 2020 sem chuva e com tempo seco, depois, em meados de Janeiro a chuva voltou a toda a região. Foi, na realidade, um Inverno muito chuvoso que permitiu repôr as reservas de água nos solos e a água disponível.

    Um final de Janeiro, com temperaturas superiores à média e que se prolongaram até final de Fevereiro, registou-se tempo quente e seco. De acordo com o boletim climatológico sazonal do IPMA (Instituto Português do Mar e da Atmosfera), o mês de Fevereiro foi o mais quente desde 1931 e como consequência houve também uma diminuição da percentagem de água no solo utilizável pelas plantas.

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"a vindima de 2020 foi, sem dúvida, uma vindima desafiante. Juntamente com o momento sanitário delicado que vivemos, e que nos levou a estabelecer diversas medidas preventivas de combate ao COVID-19 de forma a evitar qualquer problema que pudesse pôr em cauda o normal desenrolar da vindima, o ano climático também não facilitou. 2020 acabou por se revelar um ano quente e precoce, com produções bastante reduzidas, em que castas como a Touriga Franca sofreram mais com o excesso de calor. O problema da falta de água aliado às altas temperaturas sentidas, colocou as vinhas mais expostas em stress, fazendo com que as uvas amadurecessem rapidamente, obrigando-nos a correr atrás do tempo e acelerar a vindima de maneira a não fugirmos da janela de maturação pretendida. Parece-me um ano que trará vinhos com bastante concentração e estrutura, robustos e com potencial. Resta-nos esperar e acompanhar a sua evolução.".

(Ricardo Pinto Nunes, Director de Produção e Enólogo da Churchill's)

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Quinta do Passadouro, Vale de Mendiz, Vale do Pinhão

Primavera 

    Foi uma Primavera com condições muito difíceis, em que foi necessário um acompanhamento permanente, uma atenção constante e imenso trabalho nas vinhas.

    Nos primeiros dias de Março registou-se alguma chuva por toda a região do Douro.

    Surgem os primeiros sinais de vida nas vinhas no início de Março, há vida nas vinhas que começam a despontar e a paisagem de vinha no Douro renasce, com a natureza a florescer. Nesta fase, o ciclo da vinha está adiantado, o abrolhamento(1) registado a 3 de Março e o lançamento das primeiras folhas foi precoce em cerca de 2 semanas, o mesmo sucedendo com a floração.

    A partir do momento em que as videiras começam a despontar termina o descanso e recomeçam os trabalhos na vinha que só vão terminar com o fim da colheita.

    Os últimos dias de Março e um início de Primavera com dias quentes e depois, surpreendentemente, no último dia de Março, houve uma queda da temperatura com frio que pintou de neve os pontos acima dos 700 metros de altitude (Mesão Frio, Vila Real, S. João da Pesqueira), um facto praticamente sem registo anterior nesta altura do ano (um efeito das alterações climáticas?), uma situação que pode causar danos nas rebentações da vinha. Por estes dias surgem também notícias de algumas vinhas que sofreram estragos com a geada (na sub-região Baixo Corgo) com a consequente redução da produção.

    No início de Abril prosseguem os trabalhos na vinha com a poda em verde, indispensável para assegurar o equilíbrio e o controlo da qualidade de produção da vinha. Em meados do mês, as folhas soltas e os primeiros cachos começam a aparecer. Segue-se a despampa ou desladroamento(2) e o primeiro tratamento.

    O começo de Maio com temperaturas bem acima da média (cerca de 2ºC acima dos valores médios) por toda a região vinhateira. Em plena Primavera, em meados do mês de Maio, entre os dias 7 e 14, registou-se alguma chuva em toda a região com consequências na vinha. A primavera chuvosa foi um dos factores de instabilidade na vinha.

    O tempo instável, calor, chuva e humidade, todos os factores reunidos para o aparecimento do míldio e do oídio - uma Primavera molhada significa sempre mais trabalho nas vinhas - que determinou maior necessidade da tratamentos e muito trabalho na viticultura, para prevenir e evitar o alastramento destas doenças da vinha, com o inevitável aumento dos custos e também com quebra na produção. Foi um ano em que houve uma grande pressão do míldio e do oídio nas vinhas em toda a região.

    Foi também um ano com uma nascença muito baixa (traduz o número médio de cachos por gomo deixado na poda das videiras) inferior à média, em que a floração das vinhas ocorreu na última semana de Maio.

    Este período caracterizou-se por uma grande irregularidade do clima em toda a região, com temperaturas altas e bastante acima da média na última semana de Maio (4 a 5ºC acima da média) e depois em Junho (dia 12), temperaturas a descerem e chuva em todo o Douro.

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"a vindima de 2020 começou muito cedo, na terceira semana de Agosto, tanto para as uvas brancas mais precoces como para as uvas tintas de zonas mais quentes e secas. Logo ao fim da primeira semana começou a verificar-se um fenómeno de empassamento, sobretudo na Touriga Franca que rapidamente levou a uma concentração elevada de açúcares na uva. Em termos quantitativos verificou-se uma quebra muito acentuada na produção, tanto no Cima Corgo como no Douro Superior. Já a sub-região do Baixo Corgo, significativamente mais fértil e húmida, teve ligeiras quebras na produção. Relativamente à qualidade, os brancos apresentam-se ricos e expressivos enquanto os tintos precisarão de mais tempo para se mostrar.".

(Óscar Quevedo, produtor vinhos Quevedo)

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Depois da prensagem, na Quinta de la Rosa, Pinhão


Verão

    Assiste-se à formação dos cachos, com os bagos a crescer e os cachos a fechar. A 20 de Junho, as primeiras alterações de côr e textura dos bagos que anunciam  o "pintor", de acordo com o provérbio popular "Santiago pinta o bago". Registou-se uma antecipação desta fase em cerca de 1 semana a 10 dias para algumas castas tintas como a Touriga Nacional e a Touriga Francesa.

    O amadurecimento da uva marca uma fase muito importante do ano vitivinícola, é o início da acumulação de açucares e perda de acidez no bago de uva, que são factores determinantes para a qualidade final do vinho. É através do sol que os cachos vão ganhando côr, açúcar e todos os diversos componentes que vão determinar os aromas e os sabores finais do vinho.

    Continuam os trabalhos na vinha com a orientação do crescimento da vegetação, ramos e folhas, para arejamento dos cachos.

    A 22 de Junho há uma mudança no clima, um aumento da temperatura e um baixo nível de humidade, sol intenso, abrasador e agressivo, que provocou escaldão nos cachos mais expostos (um fenómeno conhecido na região como "queima de São João"). Este fenómeno, que neste ano foi bastante violento e que também atingiu as vinhas a maior altitude, juntamente com a baixa nascença, provocou uma quebra na quantidade da produção. A Tinta Barroca e a Touriga Francesa foram as variedades que mais sofreram com estas condições.

Aquecimento global, os efeitos das alterações climáticas no ano vitícola

    Os últimos dias de Junho e o mês  de Julho, com temperaturas muito altas em toda a região demarcada do Douro, muito acima da média e com níveis de humidade muito baixos. No Pinhão, na Quinta da Roêda (Croft) registaram-se 8 dias seguidos com temperaturas máximas acima dos 40ºC e uma temperatura mínima também muito alta, o dia mais quente com uma temperatura de 42,73ºC. De acordo com o IPMA, Julho foi o mês mais quente desde 1931. Em geral, no país, os dados registados para o período de Janeiro a Julho, assim como para Julho de 2020, que foi o mais quente desde há 90 anos. O período entre Janeiro e meados do mês de Setembro foi o mais quente desde que existem registos (desde 1850) e dos 17 anos mais quentes registados, 16 ocorreram desde 2000 até agora. O que começa a ser um padrão consistente de anos mais quentes é uma preocupação para todo o Douro.

    Na 3.ª semana de Julho, a fase do pintor a terminar.

    A vindima aproxima-se, na primeira semana de Agosto os cachos estão em plena fase de maturação, em busca dos níveis de açúcar e acidez ideais. Neste início de Agosto, o tempo continuou seco e com temperaturas altas, acima de média, em alguns pontos das sub-regiões do Cima-Corgo e Douro Superior, registam-se temperaturas acima dos 40ºC.

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"... em termos climáticos foi um ano bastante atípico e bastante difícil, apesar de termos um inverno e uma primavera chuvosos que nos garantiu algum suporte hídrico nos solos, mas tivemos um ano quente, Julho talvez dos Julhos mais quentes das últimas décadas, e um Agosto e Setembro que ainda continuam a ser quentes, tivemos pouca nascença, tivemos problemas na floração e vingamento, tivemos que fazer mais tratamentos, houve queima de uvas, enfim uma série de coisas que nos leva a concluír que a nossa estimativa seja que nós tenhamos uma redução na produção na ordem dos 25 a 30% para ser bastante positivo...".

(Álvaro Martinho Lopes, Responsável pela viticultura da Quinta das Carvalhas, Real Companhia Velha)

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Vindima

    Confirmaram-se os sinais de vindima precoce do começo de Agosto, foi uma vindima que começou muito cedo, com as uvas brancas, entre meados e a última semana de Agosto.

    Entre 17 e 20 de Agosto foi muito importante a chuva que caiu em alguma quantidade em toda a região, e que em muitos casos chegou no momento certo para ajudar a aliviar os efeitos do calor excessivo na vinhas e para tentar conseguir algum equilíbrio nas maturações, todavia, teve também o efeito de acelerar o amadurecimento.

    Os dias muito quentes mantiveram-se durante a vindima causando escaldão em algumas vinhas e, numa primeira fase, dificuldade em iniciar a vindima, uma vez que o calor excessivo e a necessidade de água provocou algumas paragens e irregularidades nas maturações, numa segunda fase, a necessidade de vindimar e de levar rapidamente as uvas para as adegas para evitar a rápida perda de acidez, os níveis de açúcar mais elevados e o aumento da graduação alcoólica potencial, consequência de uma rápida desidratação dos bagos, tentando preservar algum equilíbrio ideal entre estes factores essências que se vão sempre reflectir nos vinhos.

    Houve uma necessidade de acompanhamento e avaliação permanente das maturações, de adaptações constantes na logística da vindima e idealmente uma coordenação perfeita entre viticultura e enologia.

    Setembro manteve-se com temperaturas altas, acima da média, e com registo de chuva em toda a região demarcada entre os dias 17 e 20.

    Foi uma vindima antecipada e muito curta, que terminou antes dos últimos dias de Setembro. Alguns exemplos, na Quinta de la Rosa, no Pinhão, foi provavelmente a vindima mais antecipada e mais curta registada nesta propriedade. Na Quinta da Roêda (Croft), também no Pinhão, foi a segunda vindima mais precoce registada (logo a seguir a 2017). Na Quinta dos Malvedos (Graham's), numa zona de transição entre as sub-regiões do Cima Corgo e Douro Superior, a vindima durou menos de três semanas. Na Quinta das Carvalhas (Real Companhia Velha), na sub-região do Cima Corgo, registou-se uma antecipação do ciclo em cerca de 10 dias e foi a vindima mais antecipada dos últimos 20 anos.

Depois da Vindima

    Foi indubitavelmente um ano bastante atípico e muito complicado e difícil, de baixa produção, com baixa nascença, cachos pequenos, uma vindima curta e com uma redução na produção de cerca de 30% e mesmo de 40% em algumas propriedades.

    Apesar das considerações gerais que aqui ficam registadas, nunca podemos esquecer que o Douro é uma região imensamente variada, em sub-regiões, microclimas, diferentes localizações das vinhas, diferente altitudes e exposições solares, as diferentes castas, enfim, diversos terroirs, o que permite sempre que existam casos particulares que escapem a alguns dos factores que caracterizaram o ano vitícola.

    Começou por ser determinante a instabilidade meteorológica na Primavera, nos meses de Abril e Maio, que favoreceram a ocorrência severa do míldio e oídio que obrigou a mais tratamentos na vinha. Depois, a floração não foi a ideal para os cachos vingarem e houve uma grande heterogeneidade nas maturações com produções mais fracas do que o habitual. Ainda, o calor excessivo e o escaldão que provocou nos cachos, e que se manteve durante a vindima dificultando o amadurecimento e o equilíbrio entre o açúcar, a acidez e o pH.

    Todavia, numa produção com grandes quebras, houve também maior concentração e intensidade dos vinhos produzidos, com mais estrutura, assim como os níveis de açúcar mais elevados permitiram fermentações mais longas e com maior extracção, no caso dos vinhos do Porto. Daqui em diante, resta acompanhar a evolução dos vinhos na adega.

    Apesar de todas as dificuldades, houve castas que revelaram todas as suas potencialidades nestas condições agressivas e extrema, desde logo a Touriga Nacional, Tinto Cão, Tinta da Barca e Sousão, assim como, destacou-se também, o comportamento das vinhas velhas que, em geral, revelaram grande capacidade de adaptação e resistência às condições adversas deste ano, com produções de qualidade.

Os "despojos" da vindima, Quinta de Nápoles, Vale do Tedo.

Notas:

(1) O abrolhamento da videira: o momento que marca o início do ciclo vegetativo da videira, que termina a época de repouso com o aparecimento dos primeiros rebentos ou a rebentação dos gomos.

(2) A despampa ou desladroamento tem como finalidade controlar o excesso de crescimento vegetativo da vinha e toda a rebentação inútil que dispersa os recursos naturais da planta, contribuindo para a qualidade final da uvas.

©Hugo Sousa Machado

Mais informação: 

Douro, a vindima de 2020: um testemunho


 

sábado, 30 de novembro de 2019

Douro, the 2019 harvest report

PtoPwine archive
River Tedo valley, Cima Corgo Douro sub-region

A regular year, favorable to the vine cycle...

    Good wine is never or rarely the same every year, because the wine years are always different and the wine must be the result and an expression of the characteristics of the wine year, and also of the specifics of the place where it is born and of man who produces it. To understand and better appreciate it, we should keep in mind and consider all these aspects as much as possible. In the present text we are dedicated to the 2019 wine year following the notes registered throughout the year.

    The previous 2018 harvest ended in mid-October (somewhere between the 2nd and the 3rd week), with the arrival of the first autumn rains. A rainy November followed, and in general an equally rainy autumn, very important to restore the soil water supplies. December also began with some precipitation.

Winter
    Late autumn and early winter presented mild temperatures for the season. Late December and early January with dry, cold and frosty weather. 
    February continued with dry weather without or almost no rain, it was a hot month with high temperatures for this time of year, with very little rain and already a drought situation.

    Winter and spring were dry and with mild temperatures - May turned out to be a warm month and the exception to the rule - however, the climatic conditions were good for the vineyard maturation progress.

    Even before the beginning of spring, news of early buds in the vines start to appear in some parts of the Douro, the moment that marks the beginning of the vine's vegetative cycle, a consequence of mild temperatures and a mild winter, with temperatures higher than usual which anticipated and accelerated the start of the vine cycle.

    At the beginning of March the drought situation and little rain continued.

Spring
    At the end of March, early spring is marked by temperatures well above average recorded in all Douro sub-regions.

    There is new life on the vineyards with the bursting of the first vine leaves.

    At the beginning of April, in the middle of spring, suddenly there was a moment when the weather situation reversed and the temperatures dropped below average and there was finally some but insufficient rainfall all over the Douro region.
    Also in April, the "Prodouro" (Professional Wine Growers Association) and IVDP (Douro and Port Wine Institute) advised and announced anti-mildew prevention and treatment measures.

    Then followed May, in warm weather within average temperature values. Maximum temperatures of 30ºC where recorded throughout the Douro.

    In general, hitherto dry weather and mild temperatures with little or no rainfall, low humidity levels, and unlike previous years there was no unexpected irregular or extreme weather phenomena affecting production (such as heavy and sudden rainfall and hailstorms, extreme heat, scalding and vine dehydration) especially in the grape flowering phase, which this year occured in good weather condtions.

    During the month of May, with high temperatures and low rainfall, the pressure of the vine diseases was very low, there were no notable mildew attacks, which in turn led to less intervention in the vineyard and the advantage of reducing the required vine treatments.


"Good conditions for flowering, thus bringing a very interesting productive potential". (Fancisco Olazabal, Quinta do Vale Meão winemaker)

PtoPwine archive
River Tedo valley, Cima Corgo Douro sub-region (2)

Summer

    In early summer the weather remained dry with temperatures within average. Later in June, with high and above average maximum temperatures (37,2ºC recorded in Vilariça, in Douro Superior sub-region) and also a high temperature range.

    The "veraison" phase took place in mid-July with lush vineyards with a notorious vitality, a sign and prognostic of increased productivity.

    In midsummer in a widespread drought situation, there was rain in late August (there was an "orange warning" in the Vila Real district with heavy rain and thunderstorm forecast, in general without any noteworthy consequences in the vineyards) with some intensity in some areas of the Douro, such as Pinhão and S. João da Pesqueira, that turned out to be beneficial to the vineyards and this along with mild summer temperatures contributed to the grape and wine quality, with a regular, slow and smooth ripening, balanced musts and controlled alcohol levels. There was no extreme heat phenomena and generally these weather conditions were beneficial and persisted until the beginning of the harvest.

    The harvest began in late August and erly September, with high temperatures and with continued widespread drought, hot weather during the day and cooler nights. The red grapes began to be harvested in the second week of September.

    The news of the harvest beginning even refered to an increase of production of around 30% considering the very low yields of the previous 2017 and 2018 harvests, thus not only returning to average production values but surpassing it. 
    In harvest time the recurring pressure of labour shortages and the difficulty of hiring workers to work in the vineyards is felt (not only during harvest but  throughout the whole wine year), a chronic problem and one of the principal present and future Douro region issues.

    During harvest, temperatures were moderate, warm weather during the day and cooler nights allowed uniform maturation and generally providing good acidity. There were no climatic unforeseen events which allowed to follow harvest according to planed without any changes or weather surprises.

    In the middle of the harvest, on 21 and 22 September, there was little rain throughout the Douro, but without consequences in the quality of the grapes, returning then the hot and dry weather.

    The harvest ended by mid-October in the vast majority of cases coinciding with the first autumn rains. And so the work in the cellars and in the tasting rooms began.


PtoPwine archive
Quinta de la Rosa, Cima Corgo Douro sub-region, arrival of the first red grapes.

    Concluding, it was a year without major climatic extremes, conditions that favored the vine cycle and grape maturation. The vintage report published by the Symington Family Estates refers the good quality of the wines produced, "impressive" in the word used.
    The main characteristcs of this year's wines are balance, freshness and good acidity, but to the detriment of body and structure. There was also an increase in the volumes produced as already mentioned. Dispite the comments of a "superior year" and a "very good quality", we have also heard that vineyards with a lot of vitality and very productive are rarely synonymous with Vintage Port quality and 2019 does not seem to be an exceptional year in the particular case of Vintage Port wines.

©Hugo Sousa Machado


Previous reports:




Douro, relatório da vindima 2019

PtoPwine archive
Vale do rio Tedo, sub-região do Cima Corgo.


























       Um ano sem sobressaltos, favorável ao ciclo da vinha...      
   O bom vinho nunca é igual todos os anos, precisamente porque os anos raramente são iguais e o vinho deve ser também o resultado e a expressão das características do ano vitícola, assim como do lugar onde nasce e do homem que o produz. Para melhor o compreender e apreciar, devemos ter presente e perceber tanto quanto possível todos estes diferentes aspectos. Neste texto consideramos o ano vitícola 2019 seguindo os apontamentos registados ao longo do ano.

    A vindima de 2018 terminou em meados de Outubro, entre a 2.ª e 3.ª semana do mês, coincidindo com as primeiras chuvas de Outono, a que se seguiu um mês de Novembro chuvoso e, em geral, um Outono igualmente chuvoso, que foi muito importante para repôr as reservas de água nos solos. Dezembro começou também com alguma precipitação.

Inverno
    Fim do Outono e início do Inverno com temperaturas amenas para esta época do ano, depois um final de Dezembro e início de Janeiro 2019 com tempo seco, frio e geada.
    Fevereiro continuou sem ou quase sem chuva e com as temperaturas acima da média, foi um mês de Fevereiro quente, com pouca chuva e já numa situação de seca.

    O Inverno e a Primavera foram secos e com temperaturas amenas - Maio acabou por ser um mês mais quente e a excepção a esta regra - contudo, as condições foram favoráveis ao progresso do ciclo vegetativo da vinha.
    Ainda antes da chegada da Primavera, surgem notícias de abrolhamento precoce em alguns pontos do Douro, o momento que marca o início do ciclo vegetativo da videira, consequência de um Inverno com temperaturas amenas, superiores ao habitual, que antecipou e acelerou o início do ciclo na vinha.

    No início de Março, manteve-se a situação generalizada de seca e muito baixa precipitação.

Primavera
    No final do mês de Março, o começo da Primavera é marcado por temperaturas acima da média registadas em todas as sub-regiões da região demarcada do Douro.

    Vida nova na vinha com o rebentamento das primeiras folhas.

    Em plena Primavera, no início de Abril, subitamente, houve um momento em que a situação climatérica se inverteu, a temperatura baixou para valores inferiores à média e a chuva apareceu em toda a região, embora tenha sido insuficiente.
    Ainda em Abril, a Prodouro (Associação de Viticultores Profissionais) e o IVDP (Instituto dos Vinhos do Douro e Porto), anunciam e aconselham medidas de tratamento anti-míldio.

    Depois, em Maio, tempo quente e temperatura de acordo com os valores médios para esta época do ano. Registaram-se temperaturas máximas de 30º C por toda a região do Douro.

    Em geral, até aqui tempo seco e temperaturas amenas, nenhuma ou precipitação insuficiente, pouca humidade e, ao contrário do que sucedeu em anos anteriores, não ocorreram fenómenos climatéricos inesperados, irregulares ou extremos que prejudicassem a produção (como as chuvas intensas e repentinas, as tempestades de granizo, o calor extremo com os fenómenos de escaldão das uvas ou a desidratação das videiras), sobretudo na fase crítica da floração das uvas, que ocorreu este ano em condições climatéricas muito favoráveis.

    Durante o mês de Maio, com temperaturas altas, baixa precipitação e pouca humidade, a pressão das doenças da vinha foi muito baixa, não houve ataques de míldio ou oídio dignos de nota, o que por sua vez levou a uma menor intervenção na vinha com a redução dos tratamento habituais necessários.


"boas condições para a floração, trazendo assim um potencial produtivo bastante interessante.". (Francisco Olazabal, Enólogo responsável da Quinta do Vale Meão)

PtoPwine archive
Vale do rio Tedo, sub-região do Cima Corgo (2).

Verão
    O tempo seco manteve-se no começo do Verão, com as temperaturas a acompanhar os valores médios para a época. Mais no final de Junho, com o tempo seco e temperaturas máximas altas e superiores à média (registou-se 37,2ºC na Vilariça no Douro Superior) e com uma elevada amplitude térmica.

   A fase do "pintor" aconteceu a partir de meados de Julho nas vinhas exuberantes e com uma notória vitalidade, um prenuncio do aumento da produtividade.

    Em pleno Verão e numa situação de seca generalizada, houve chuva no final de Agosto (foi decretado "alerta laranja" para o distrito de Vila Real com previsão de chuva e trovoada, contudo, sem consequências dignas de registo nas vinhas) com intensidade em algumas zonas do Douro (Pinhão e São João da Pesqueira), que acabou por ser benéfica para as videiras e que, com um Verão de temperaturas amenas contribuiu para a qualidade das uvas e do vinho, com maturações regulares, lentas e suaves, mostos equilibrados e teores alcoólicos controlados. Não houve ocorrências de calor extremo e prolongado nas vinhas e em geral as condições climatéricas foram benéficas e assim se mantiveram até ao início das vindimas.

    A vindima teve início em final de Agosto e começo de Setembro, com as temperaturas altas e uma situação meteorológica de seca que se manteve, com tempo quente mas com noites mais frescas. As uvas tintas começaram a ser vindimadas na segunda semana de Setembro.

    As notícias do começo das vindimas no Douro chegaram a fazer referência a um aumento da produção que podia atingir 30%, considerando as produções muito baixas das últimas vindimas de 2017 e 2018, superando agora os valores médios de produção.
    Em época de vindimas volta a recorrente pressão da falta de mão-de-obra e a dificuldade em contratar trabalhadores para a vindima (não só durante o período de vindima mas também para os restantes trabalhos na vinha ao longo do ano), um problema crónico e um dos assuntos mais sérios na actualidade e futuro da região do Douro.

    Durante a vindima as temperaturas foram moderadas, com tempo quente durante o dia e as noites com temperaturas mais frescas, o que permitiu em geral maturações uniformes e uma boa acidez. Não ocorreram imprevistos climatéricos, o que permitiu seguir os planos de vindima sem alterações nem sobressaltos.

    Registe-se ainda que, a meio da vindima, nos dias 21 e 22 de Setembro, houve alguma chuva por todo o Douro, sem consequências na qualidade das uvas, voltando depois o tempo quente e seco.

    A vindima terminou na maioria dos casos, em meados de Outubro, com a chegada das primeiras chuvas de Outono. E assim se iniciaram também os trabalhos nas adegas e nas salas de prova.

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Quinta de la Rosa, sub-região do Cima Corgo, chegada das primeiras uvas tintas.

    Em resumo, foi um ano vitícola sem grandes extremos nem fenómenos climatéricos imprevistos, o que favoreceu o ciclo da vinha e as maturações. O relatório de vindima publicado pela Symington Family Estates refere a boa qualidade dos vinhos produzidos, "impressionante" é o termo utilizado.

    As principais características dos vinhos deste ano são equilíbrio, frescura e boa acidez, mas em prejuízo do corpo e da estrutura. Houve também um aumento dos volumes produzidos como já notamos. Apesar dos comentários que referem "um ano superior" e de "muito boa qualidade", também ouvimos comentar entre os produtores que vinhas com excesso de vitalidade e grandes produções raramente são sinónimo de qualidade para vinhos do Porto Vintage. Neste caso particular do vinho do Porto Vintage, não parece tratar-se de uma ano excepcional.

©Hugo Sousa Machado

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terça-feira, 10 de setembro de 2019

Douro 2019 harvest field work

                                                                                                         PtoPwine archive

   The beginning of the red grape harvest in the Douro: one of the first shipments to reach the Quinta de la Rosa winery (Pinhão, Cima Corgo Douro sub-region).


©Hugo Sousa Machado