terça-feira, 27 de novembro de 2018

Douro, o relatório da vindima 2018


    Foi mais um ano incaracterístico, difícil e desafiante no Douro
    2018 foi mais um ano atípico no Douro. Considerando os últimos anos, poderíamos definir como regra, anos irregulares e incaracterísticos. Na realidade, foi um ano vitícola com muitas dificuldades, que teve como principais características: períodos frequentes de chuva intensa e prolongada, tempestades localizadas de granizo, a grande pressão do míldio e os efeitos de uma onda de calor. Porém, ao que parece, a qualidade das uvas foi boa ou mesmo, como relatam alguns produtores da região, extraordinária.

    Acompanhemos então este ano vitícola no Douro.

    Depois de um longo ciclo de seca, extrema e severa em muitos casos, logo a seguir às vindimas de 2017, que foram muito antecipadas, como aqui demos conta em Douro, o relatorio da vindima 2017, o tempo quente e sem chuva continuou ainda durante todo o mês de Outubro 2017. Em Novembro surgiu finalmente alguma chuva, que trouxe algum alívio à falta de água nas vinhas e no geral a todas as culturas mas que, no entanto, foi em pouca quantidade e insuficiente. Os valores de precipitação registados continuaram abaixo da média em toda a região do Douro até Março de 2018. No caso específico das videiras, são plantas com um sistema radicular profundo e com um porte pequeno, que conseguem suportar bastante bem o stress hídrico.

    O Inverno

    O Inverno foi frio e seco, com alguma pouca e insuficiente chuva.

    A Primavera

    Com o início da Primavera, surgiu finalmente chuva intensa e abundante, que permitiu a reposição das reservas de água no solo e foi essencial para ultrapassar os anteriores períodos de calor e seca. Nos meses de Março, Abril e Maio de 2018, os níveis de precipitação foram aproximadamente o dobro da média para esta época do ano.

    Para além de extremamente chuvosa, foi também na Primavera que surgiram as primeiras dificuldades do ano, durante um período mais frio, com chuva forte e intensa, a 28 de Maio, irrompe uma intempérie de trovoada e granizo. O solo foi incapaz de absorver uma tão grande quantidade de água em tão pouco tempo, o que provocou deslizamento de terras e queda de taludes (as estradas entre Alijó, Sabrosa e Pinhão foram cortadas). Esta tempestade provocou estragos, prejuízos significativos e perdas em algumas vinhas, sobretudo na sub-região do Cima Corgo, nos concelhos de Alijó e Sabrosa, na vila do Pinhão e área circundante, em Provesende e Vale de Mendiz.
    Alguns dos produtores da região registaram perdas totais e parciais de colheitas. Entre algumas das quintas afectadas temos a Quinta do Junco (The Fladgate Partnership), Quinta do Noval, Quinta do Bonfim, Quinta da Cavadinha e Quinta de la Rosa.

    Refira-se, como nota, que estes fenómenos de tempestades localizadas de granizo têm ocorrido com cada vez mais frequência no Douro

    O tempo instável, a forte chuva do final do mês de Maio e as temperaturas mais baixas, coincidiram com a fase do abrolhamento da videira(1) e a floração tardia, teve como consequência, graves perdas e o atraso do ciclo vegetativo da videira entre 2 a 3 semanas.
    Seguiu-se ainda chuva nas primeiras semanas de Junho e a instabilidade meteorológica, com chuva constante e até bastante tarde e os elevados teores de humidade originaram as condições ideais para o aparecimento do míldio(2), excepcionalmente agressivo este ano, que atacou as videiras e provocou em muitos casos grandes perdas na produção. O míldio significou também um acréscimo de custos para os produtores, tanto nos tratamentos adicionais para combater a doença, como anteriormente para a cicatrização das marcas nas videiras que foram mais atingidas pelo granizo.


Na Quinta do Passadouro, Vale de Mendiz, no vale do rio Pinhão

     O Verão

    Os meses de Junho e Julho caracterizaram-se por alguma instabilidade climática, com muita chuva ainda em Junho. O verão chegou, inicialmente com temperaturas amenas e inferiores ao habitual, o que manteve o atraso do ciclo vegetativo.

    Mas, com a chegada do mês de Agosto, o clima alterou-se, com períodos de grande calor e temperaturas superiores à média. No início de Agosto registaram-se temperaturas superiores a 40ºC nas sub-regiões do Cima Corgo e Douro Superior (em alguns casos superiores a 45ºC) e uma onda de calor que causou fenómenos de escaldão em muitas vinhas, com as vinhas e castas mais sensíveis e com menor resistência ao intenso calor, a sofrerem mais. O dia 4 de Agosto foi o dia mais quente do séc. XXI e, de acordo com os dados do IPMA(3), o mês de Agosto foi o segundo mais quente dos últimos 88 anos.

    Todavia, o bom tempo de Julho, Agosto e Setembro, que foram meses quentes e secos, permitiu regularizar a maturação das uvas e o mês de Setembro quente contribuiu para uma aceleração do amadurecimento.

    A Vindima

    Foi uma vindima tardia, determinada ainda pelo atraso do ciclo vegetativo da vinha, que acabou por determinar que a vindima se realizasse mais tarde do que o habitual na região. Este atraso, de cerca de duas semanas nas fases de desenvolvimento da videira, abrolhamento, floração e pintor, foi generalizado em toda a região demarcada do Douro. Como referimos, as temperaturas mais altas durante a fase de maturação das uvas permitiram alguma recuperação do ciclo fenológico.

    Toda a vindima decorreu com bom tempo, bastante quente, com temperaturas máximas altas, superiores a 30ºC (de acordo com os dados do IPMA, o mês de Setembro foi o mais quente desde que existem registos), com os dias quentes mas com noites mais frescas que influenciaram a qualidade final das uvas e do vinho.

    A vindima terminou, na maioria dos casos, entre a segunda e terceira semana de Outubro, que coincidiu com a chegada das primeiras chuvas de Outono.

     A produção

    Todas as dificuldades deste ano vitícola - as condições climatéricas irregulares, o granizo, a pressão do míldio - não podiam deixar de se reflectir na quebra de produção de aproximadamente 30% (ou entre 20% e 50%). Apesar de tudo, quando se considera a qualidade, parece haver unanimidade entre os produtores quanto a uma colheita, pelo menos, de boa qualidade.

    Alguns casos

    De acordo com o relatório divulgado pela Quinta do Vallado, no conjunto da Quinta do Vallado e das vinhas do Douro Superior que este produtor detém, a quebra de produção total atingiu cerca de 15%, sublinhando como pontos positivos, as vinhas que produziram bem e com uma qualidade óptima, a par do sousão que sofreu bastante com o calor, outras castas como a touriga francesa tiveram um bom desempenho. Em todo o caso, as expectativas são elavadas, não apenas para os vinhos do Porto, mas também para os vinhos tranquilos desta casa.

    No grupo Symington Family Estates (detentor das marcas principais de vinho do Porto Cockburn's, Dow's, Graham's, Quinta do Vesúvio, Warre's) em 2018 a produção foi muito baixa, com muitas das vinhas a produzirem menos 40% do que o habitual e com algumas poucas vinhas com um rendimento de menos 25%. Apesar da baixa produção e também como consequência, produziram-se alguns vinhos do Porto excelentes, assim como vinhos D.O.C. Douro. Tal como a Quinta do Vallado, a Symington assinala o bom comportamento da touriga francesa, com boa côr e bons aromas que vão ser as características dos vinhos desta casta este ano.

    Alexandre Antas Botelho, responsável pelos vinhos do Porto da Noble & Murat, refere que 2018 " (em qualidade) foi no geral francamente bom. No nosso caso, as uvas chegaram em bom estado à adega, tivemos apenas de ter cuidado em relação à temperatura da fruta e ao estado de maturação, de modo a preservar a acidez natural essencial para o equilíbrio dos vinhos. No lagar a questão crítica foi manter as temperaturas baixas e sob controlo o que, de resto, é já uma tendência que se tem verificado nos últimos três anos. Os mostos resultantes das vinificações deste ano têm uma boa côr e um bom corpo, apresentando também aromas muito interessantes.".


Na Quinta de Nápoles, Armamar, vale do rio Tedo

Notas: 

(1) Abrolhamento: marca o início do ciclo vegetativo da videira. A videira termina a época de repouso com o aparecimento dos rebentos ou rebentação dos gomos.

(2)Míldio: "este flagelo apareceu em 1891, depois de terem sido introduzidos os porta-enxertos dos EUA, resistentes à filoxera. Ataca tanto as parras, como as flores e os frutos. (...) A humidade e o calor são as condições essenciais para o seu aparecimento. Em caso de ataque, as roseiras imediatamente acusam o sucedido, antes da videira. Por essa razão se plantam roseiras nos vinhedos.". in Diccionário Ilustrado do Vinho do Porto, de Manuel Pintão e Carlos Cabral.
    É uma das principais doenças da videira (a mais destrutiva na Europa), ocorre um pouco por todo o país. Trata-se de um fungo que ataca as partes verdes e os frutos em todas as fases do seu desenvolvimento. Pode causar graves prejuízos, que variam de acordo com a susceptibilidade da casta e o estado de desenvolvimento da planta. Surge habitualmente nas primaveras chuvosas e verões húmidos.

(3) IPMA: Instituto Português do Mar e da Atmosfera.

©hsm


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