terça-feira, 30 de novembro de 2021

Douro, o relatório geral da vindima 2021

A apreciação e o registo dos factos que marcaram o ano vitícola (com comentários exclusivos)

Vale do rio Pinhão (Cima Corgo). Fotografia de Luís Machado.

O Outono

    Terminada a vindima no Douro, o Outono começou com tempo seco, sem chuva e com temperaturas médias um pouco abaixo do normal, a que se seguiu chuva já no final do mês e início de Novembro 2020, mas em quantidade insuficiente, apesar dos valores de precipitação se enquadrarem nos valores médios. Em geral, no país, o IPMA (Instituto Português do Mar e da Atmosfera) considerou o mês de novembro um mês quente.

    As vinhas iniciam um período de dormência que durará até ao início da próxima Primavera e aguarda-se a queda das folhas na vinha para o começo dos trabalhos de poda, entretanto, decorrem os trabalhos no solo, lavra-se a terra nas vinhas, movimentam-se os solos para misturar a matéria orgânica e oxigenação. O mês de Dezembro decorre com temperaturas de acordo com a média e com alguma chuva em todas as sub-regiões até ao fim do Outono, com o registo da passagem da depressão "Dora" (4 e 5 de Dezembro), com chuva e uma massa de ar frio polar, descida de temperaturas e queda de neve nas cotas mais altas, acima dos 600/700 metros de altitude, nos altos de Sabrosa e Ervedosa.

O Inverno

    No início do Inverno a chuva parou. Tempo seco.

    No final de Dezembro as temperaturas descem subitamente com a passagem de uma massa de ar polar, com temperaturas médias registadas mais baixas relativamente aos valores médios, em cerca de 2ºC a 5ºC. No dia 26 Dezembro, temperaturas mínimas de 0,2ºC no Pinhão e em Adorigo e -3,2ºC na Vilariça. Seguiu-se chuva nos últimos dias do mês.

    O novo ano começou com um Inverno rigoroso, tempo muito frio persistente e seco, período em que as temperaturas desceram muito abaixo dos valores médios, cerca de menos 5ºC a 6ºC. Em Cambres (Baixo Corgo) e no Pinhão (Cima Corgo), registou-se uma temperatura mínima de -2,7ºC no dia 8 de Janeiro, e -6,4ºC na Vilariça (Douro Superior) a 7 de Janeiro. Situação que se manteve até ao dia 18 de Janeiro.

    "Persistência de valores baixos da temperatura mínima", de acordo com o IPMA. Temperaturas médias e mínimas inferiores aos valores médios dos últimos anos, em toda a região (aproximadamente menos 6ºC e 7ºC, e em algumas zonas com uma diferença ainda maior, como Soutelo do Douro e vale da Vilariça no Douro Superior, Cambres, no Baixo Corgo, Canelas, Adorigo e Pinhão no Cima Corgo) e temperaturas máximas que não passavam os 4ºc a 5ºC (em Sabrosa, Alijó, Pinhão e S. João da Pesqueira).

    Gelo e geada nas vinhas. Normalmente o tempo seco e as baixas temperaturas têm um papel importante nas vinhas durante este período de dormência e repouso vegetativo, uma vez que actua como um eficaz agente que ajuda a diminuir a probabilidade de incidência de doenças nas videiras.

    É nestas condições que decorre o primeiro acto do recomeço do ciclo dos trabalhos na vinha, a poda, um trabalho meticuloso e exigente em que é muito importante a experiência dos podadores e fundamental para a vida saudável da videira e para começar a definir a próxima vindima, é uma das operações mais importantes para o equilíbrio e qualidade da futura produção. Prepara-se a vinha para que volte a rebentar quando as temperaturas começarem a subir. Por esta altura, na paisagem de vinha pode-se observar o fumo que resulta da queima das varas deixadas depois da passagem dos podadores.

    Depois, no final de Janeiro e início de Fevereiro, as temperaturas (mínimas e máximas) subiram bastante acima dos valores médios, em cerca de 4ºC e a chuva voltou a toda a região do Douro e manteve-se até final do mês com algumas variações de intensidade. Nesta época do ano é importante para a reposição das reservas de água nos solos e prevenir o tempo quente e seco do Verão.

    A precipitação tornou-se forte, intensa e persistente durante vários dias, com a subida significativa do nível das águas do rio Douro no Peso da Régua, inundando a zona marginal, marina e cais, que obrigou a um acompanhamento constante. No dia 6 de Fevereiro foi emitido um alerta de cheias para várias albufeiras da bacia hidrográfica do Douro (Crestuma, Carrapatelo, Bagaúste, Valeira e Pocinho), que registaram reservas de água acima dos 90%. No dia 9 de Fevereiro, alerta de cheias na zona ribeirinha da cidade do Porto. O rio Douro e os seus afluentes correm caudalosos com o consequente aumento das cotas ao longo de todo o percurso do rio.

    O mau tempo e a chuva provocaram também constrangimentos na linha do Douro, em Covelinhas, por derrocada de pedras na linha do caminho de ferro, que obrigou ao corte entre a Régua e o Pinhão.

    Os registos meteorológicos: de acordo com os dados registados, em Novembro, Dezembro e Fevereiro, a média das temperaturas ficaram acima do valor histórico. Fevereiro foi dos meses mais quentes do período de Inverno, com desvios de +1,3ºC no Baixo Corgo, +2,1ºC no Cima Corgo e +2,5ºC no Douro Superior. Fevereiro foi também o mês que apresentou valores de precipitação acima do valor histórico nas três sub-regiões do Douro, com desvios entre os +56% e os +108%.

    Neste começo do mês de Fevereiro, as temperaturas em geral estão de acordo com os valores médios mas, a partir do dia 19, as temperaturas máximas e mínimas começam a subir num anúncio de Primavera antecipada. No Douro Superior, a animação de Inverno, as amendoeiras começam a florir.

    Nos primeiros dias de Março, com dias mais serenos, sem chuva e com as temperaturas a subir, as videiras preparam-se para saír do seu período de dormência e surgem as primeiras notícias de vida nas vinhas, os primeiros sinais do despertar das vinhas depois do frio e da dormência de Inverno, e um novo ciclo vegetativo que está prestes a começar, com o choro da videira (registado a 10 de Março na Quinta do Noval) em que a seiva pinga dos cortes da poda de Inverno e pára assim que as feridas ficam saradas.

    Logo após o choro da videira, surge o abrolhamento, um sinal da Primavera, em que os pequenos gomos irrompem dos nós deixados na poda (dia 14 de Março na Quinta do Convento de São Pedro das Águias e no dia 16 na Quinta Vale D. Maria, na sub-região do Cima Corgo), depois surge uma ponta verde e as pequenas folhas. Brevemente o verde voltará a cobrir a paisagem de vinha do Douro, o "bio-blitz".

    Esta época do ano é também marcada pelas enxertias, pelo tempo de dar nova vida às vinhas...

    Depois de um Inverno com muita água, Março foi um mês seco que decorreu praticamente sem chuva em todo o Douro.

Vinha da "Renova", Quinta do Noval, vale do rio Pinhão.

A Primavera

    No final do mês de Março as videiras estão no estado de folhas livres. Neste período, as temperaturas aumentam acima dos valores médios em cerca de 2ºC a 6ºC. Alguma chuva no início de Abril.

    No início de Abril, surge a notícia do aparecimento dos primeiros cachos e de uma boa nascença (Quinta de la Rosa, no Cima Corgo), a prometer uma produção pelo menos superior à do ano anterior.

    Em meados de Abril, volta a chuva e as temperaturas descem agora para os valores médios que se registam habitualmente nesta época do ano.

    A vinha prossegue o seu ciclo, as folhas desenvolvem-se e crescem de dia para dia, são um elemento fundamental da videira, vão dar inicio à fotossíntese produzindo a energia necessária ao seu crescimento. Com a formação dos primeiros cachos aproxima-se o período crítico da floração da videira (no dia 14 de Abril, na Quinta do Convento de São Pedro das Águias).

    A chuva de volta nos dias 21 a 26 de Abril, em intervalos regulares e com o registo de temperaturas acima da média. Abril foi um mês em que os valores de precipitação registados foram superiores face aos valores históricos, em toda  a região do Douro, com desvios de +7,7% no Baixo Corgo, +22% no Cima Corgo e +50% no Douro Superior.

    Na vinha, decorrem os trabalhos de despampa ou desladroamento, imprescindíveis para assegurar o equilíbrio da videira e controlar a produção ao eliminar o excesso de rebentos, uma vez que a rebentação excessiva vai roubar os recursos naturais da planta, como a água e outros nutrientes. Esta operação vai também permitir o arejamento e controlar as doenças como o míldio e o oídio. Assinala-se nesta ano a baixa pressão das doenças da vinha, consequência de um mês de Março sem chuva, sobretudo depois de anos anteriores em que as doenças da vinha tiveram mais incidência.

    A natureza segue o seu curso e os rebentos começam a ganhar forma.

    A floração ocorre (4 de Maio na Quinta Vale D. Maria, no vale do rio Torto, a 17 de Maio na Quinta do Vale Meão, no Douro Superior e a 25 de Maio na Wine & Soul, no vale do rio Pinhão) e o futuro da próxima vindima começa a ser definido. Neste  momento é fundamental que as condições climatéricas se mantenham equilibradas, sem fenómenos extremos, para que a polinização possa decorrer sem incidentes. Até aqui o ciclo vegetativo decorria bem.

    As temperaturas em geral mantêm-se dentro dos valores médios, descendo depois em toda a região a partir do dia 9 de Maio, e apareceu a chuva até ao dia 13, seguindo-se tempos seco. Em todo o caso, Maio foi um mês com valores de precipitação inferiores à normal climatológica.

    Depois de uma boa nascença, os períodos de chuva, humidade e calor, que surgem nesta época do ano, potenciam o habitual aparecimento de doenças fúngicas na vinha, míldio e o oídio, aconselhando tratamentos preventivos para antecipar o seu aparecimento.

    Até final do mês de Maio as temperaturas mínimas e máximas aumentam acima dos valores médios (em 3ºC aproximadamente). Entre o dia 31 de Maio e o dia 1 de Junho surgem notícias de algumas tempestades de granizo, com trovoadas, chuvas fortes e queda intensa de granizo, localizadas, mas que provocaram graves estragos nas vinhas, no território do concelho de Vila Real (nas freguesias de Guiães, Abaças, Andrães e Constantim) e em vinhas localizadas no território da região demarcada. As vinhas atingidas tinham já os cachos formados e ficaram apenas com as varas, falou-se em "catástrofe" e houve zonas em que a vindima ficou feita. A queda de granizo ocorreu também na zona do Pinhão e em geral, com variações, na sub-região do Cima Corgo, na Quinta de la Rosa algumas vinhas foram atingidas e espera-se que umas recuperem, outras nem tanto...

    A partir do dia 9 de Junho, as temperaturas aumentam, cerca de 3ºC acima dos valores médios, com temperatura máxima de 37,7ºC registada no Cima Corgo. Depois, pela segunda vez em duas semanas, no dia 13 de Junho, uma tempestade súbita e violenta, trovoada e granizo com muita intensidade, o que tem sido um fenómeno frequente em anos recentes no Douro. Os prejuízos causados foram elevados, com danos nas vinhas que, em alguns casos, vão demorar três anos a recuperar. No concelho de Vila Real, na região demarcada do Douro falou-se novamente de "catástrofe". Procedeu-se a tratamentos de cálcio para tentar salvar, conservar e cicatrizar as videiras mais atingidas. Houve freguesias deste concelho, dentro da região demarcada, onde a vinha é a principal actividade económica, onde 80% a 90% das vinhas ficaram destruídas. Em algumas zonas, o granizo cobriu de branco as vinhas. Registaram-se também ocorrências um pouco por todo o Douro, no Pinhão, S. João da Pesqueira e Tua, atingindo muitos lavradores, fornecedores de uvas às grandes casas da região.

    Foi um fim de Primavera dramático, com a ameaça constante do tempo instável, tempestades, chuva e oscilações de temperatura. Até Julho, o grande desafio foram os acidentes climáticos ocorridos. Em geral, uma Primavera muito instável e mesmo dramática e com temperaturas amenas, assim como o início do Verão mais fresco.

    A chuva voltou depois nos dias 15 a 18 de Junho, mês que se caracterizou por uma grande instabilidade climática e grande heterogeneidade na precipitação nas diferentes sub-regiões do Douro, com níveis acima dos valores médios, no Baixo Corgo +70%, no Douro Superior +224% e no Cima Corgo choveu menos 41% relativamente à normal climatológica. Os valores médios das temperaturas registadas foram inferiores ao valor histórico, entre -1,1ºC no Douro Superior e -0,6ºC no Baixo Corgo e sem diferenças no Cima Corgo.

Uvas tintas à chegada à adega, na Quinta do Vallado.

O Verão

    A partir do dia 21 de Junho, tempo seco, de acordo com as temperaturas médias da região e sem excessos. 

    A 30 de Junho, surge o "pintor" na Touriga Francesa do Douro Superior, com cerca de uma semana de atraso em relação a 2020, consequência do tempo mais fresco. A explosão do "pintor" dá-se a partir do dia 9 de Julho, na Quinta da Soalheira (em S. João da Pesqueira) e a 12 de Julho na Quinta do Noval (no vale do rio Pinhão). Meados de Julho com temperaturas altas, no Pinhão registou-se uma temperatura máxima de 38,2ºC e também no Cima Corgo, em Adorigo 39,5ºC, em Soutelo do Douro, 39,1ºC. Apesar destes dias de temperaturas altas, Julho foi considerado um mês seco e fresco.

    A partir do final do mês de Julho e início do mês de Agosto, as maturações das uvas intensificam-se. Foi um começo de Agosto com temperaturas mais frescas do que o habitual em todas as sub-regiões, menos 2ºC a 4ºC relativamente aos valores médios e com amplitudes térmicas de 9ºC a 10ºC.

    A vindima aproxima-se, com alguma apreensão com a incógnita do clima e o receio de calor excessivo o que, no entanto, acaba por não suceder.

    O Instituto do Vinho e da Vinha, publica uma previsão de aumento da produção de vinho no Douro em cerca de 20%, num ano de "desenvolvimento normal, com fenómenos de granizo muito localizado. O míldio e o oídio não tiveram impacto significativo na produção...".

A Vindima

    Em meados de Agosto, nos dias de pré-vindima, as equipas de viticultura iniciam os controlos e o acompanhamento das maturações na vinha. Um acompanhamento fundamental no terreno para a avaliação de uma série de parâmetros que nenhum outro método pode substituir, tais como, a prova dos bagos, a avaliação do sabor e da consistência da película das uvas e se a graínha está ou não castanha, ou se o bago se desprende com facilidade do pedúnculo.

    Já nos últimos dias de Agosto têm finalmente início as vindimas um pouco por toda a região, confirmando a tendência dos últimos anos de antecipação da data de vindima que, actualmente, ocorre mais cedo do que há 40 anos atrás. As semanas que se seguem serão determinantes. 

     Neste ponto, tudo está em aberto, não houve calor excessivo em Agosto, as temperaturas foram menos intensas e as noites foram frescas, o era óptimo para os vinhos de mesa e mesmo para os vinhos do Porto.

    A vindima das uvas brancas iniciou-se no dia 16 de Agosto, na Quinta Vale D. Maria, a 20 de Agosto na Quinta de la Rosa e também na Quinta do Vallado, com a vindima das uvas de Moscatel Galego branco. Na Quinta do Crasto no dia 23 e na Quinta do Noval no dia seguinte, na Wine & Soul no dia 24. Nesta altura as temperaturas estavam altas no Douro, contudo, as noites eram frescas, o que acabou por ser benéfico para os vinhos brancos.

Os lagares tradicionais da adega de vinho do Porto da Quinta do Noval.

    A Churchill's iniciou a vindima das uvas tintas no dia 26 de Agosto, assim como a Vieira de Sousa (no Cima Corgo) e Conceito Wines (no Douro Superior). Quinta Seara D'Ordens e Quinta do Passadouro, no dia 27 e Quinta da Côrte, Quinta do Têdo e Wine & Soul no dia 31 de Agosto e no dia 3 de Setembro na Quinta de Vargellas.

    Depois, em plena vindima das uvas tintas, os problemas começaram com o aparecimento de chuva em 3 períodos distintos ao longo do mês, nos dias 1 e 2 e depois 7 e 9 de Setembro, em toda a região demarcada do Douro, o que gerou ansiedade e apreensão entre os produtores e algumas vindimas foram interrompidas por alguns dias. A chuva regressou nos dias 13 e 14 de Setembro, em quantidade significativa que, diga-se, nuns casos determinou a interrupção dos trabalhos para as vinhas recuperarem e noutros casos acabou por condenar a vindima, e mais tarde reapareceu a chuva nos dias 24 e 25 de Setembro.

    O pesadelo das chuvas de Setembro, em plena época de vindimas, um mês mais fresco com temperaturas inferiores à média, teve como consequência que a maturação das uvas foi atrasando, ressentindo-se as uvas de castas mais sensíveis como a Tinta Amarela e castas de maturação tardia como a Touriga Francesa, mesmo em zonas mais quentes como o Douro Superior.

"Quando nada o fazia prevêr, a vindima de 2021 apresentou-se como um enorme desafio para a enologia dos vinhos do Douro, mas sobretudo dos Porto. Começámos a vindimar no dia 24 de Agosto e durante duas semanas tivemos excelentes condições para a produção de vinhos. A partir do dia 10 de Setembro iniciou-se um período de dias de chuva que só terminou no início de Outubro e que obrigou a acelerar a vindima para reduzir o risco de queda dos níveis de açúcar nas uvas. Foi um ano em que especialmente as castas Tinta Francisca e Touriga Francesa necessitaram de muita atenção devido ao compacto cacho e fina película que apresentam. Creio que estamos em condições de produzir uma pequena quantidade de vintage 2021 da nossa Quinta de Vale D'Agodinho e na Quinta da Trovisca. Por agora necessitamos que os próximos dois Invernos ajudem a limpar e clarificar os vinhos.". 

(Óscar Quevedo, Produtor Quevedo Port Wine) 

    As decisões sobre a vindima das uvas tintas foram muito difíceis, uma vez que, genericamente, não apresentavam a maturação ideal e na terceira semana de Setembro muitas das melhores uvas não tinham ainda entrado nas adegas. No geral, a vindima prolongou-se até à primeira semana de Outubro, na Quinta de Vargellas (Taylor's) e na Fonseca Guimaraens terminaram no dia 24 de Setembro, na Graham's, no dia 27, com as últimas uvas de Touriga Francesa a entrarem na adega, na Wine & Soul, na Quinta do Vale Meão, na Quinta do Bom Retiro e na Quinta da Ervamoira (Ramos Pinto) a vindima terminou no dia 1 de Outubro. Na Real Companhia Velha prolongou-se até ao dia 15 de Outubro.

Adega da Quinta do Vallado.

"Quinta das Carvalhas... últimos dias de colheita (11 de Outubro). Vindima longa e "molhada" além de outros atropelos... a falta de mão-de-obra está a condicionar a oportunidade em colher no ponto óptimo de maturação... e por isso, viticultores e enólogos à "prova de fogo". Venha a poda... para o ano há mais...".

(Álvaro Martinho Lopes, Responsável pela Viticultura da Quinta das Carvalhas, Real Companhia Velha)

    Em resumo, a vindima de 2021 no Douro teve condições óptimas para a vindima das castas brancas e deu origem a vinhos brancos de excelente qualidade. No caso das castas tintas houve inúmeras dificuldades climatéricas numa vindima que se prolongou e com vários períodos de chuva em plena vindima e temperaturas mais baixas do que o habitual que prejudicaram a maturação regular das uvas que amadureceram mais tarde e não atingiram o ponto ideal de sabor. Em geral, não foi um bom ano e não podemos contar com grandes vinhos tintos em 2021. Obviamente que, numa região tão variada como é o Douro, existem sempre excepções e casos de produtores que conseguiram vindimar antes da chuva e num bom ponto de maturação das uvas.

    No Douro, em 2021, a produção acabou por ser ligeiramente superior à média dos últimos 10 anos.

    Refira-se também que, mais uma vez a vindima foi marcada pela pandemia covid-19 e a dificuldade persistente em recrutar mão-de-obra para os trabalhos na vinha.

    Como principais características dos vinhos deste ano, apontam-se a intensidade de aromas, a fruta fresca e uma boa acidez.

"Na minha opinião, a vindima de 2021 afigurou-se como extremamente desafiante. Não se verificando o calor excessivo que normalmente assola o Douro durante o Verão, diria que houve uma tendência de se atrasar o início do corte relativamente a anos anteriores, na tentativa de encontrar um melhor ponto de equilíbrio entre teor de açúcares e acidez, assim como uma melhor maturação fenólica. 

No meu ponto de vista,  as primeiras chuvas beneficiaram a evolução da maturação das uvas e o seu potencial qualitativo. Foi assim o período mais intenso para se vindimar. Com o adiantar da época de corte uma nova vaga de chuvas veio, a meu vêr, influenciar decisivamente o terço final da vindima.

Pessoalmente, tomei a decisão de não vindimar algumas vinhas de Touriga Nacional, em detrimento de parcelas de Touriga Franca e nas vinhas mais velhas, por sentir que as películas estariam em melhor estado de aguentar o impacto da chuva.

No geral, apesar das dificuldades sentidas tanto devido às instáveis condições climáticas verificadas como à escassez de mão-de-obra disponível para vindimar, acho que estamos perante vinhos que irão surpreender, num estilo fresco e elegante mas com muita intensidade e caractér.".

(Ricardo Nunes Pereira, Director de Produção da Churchill's)


©Hugo Sousa Machado

  Informação sobre vindimas anteriores:

Douro, a vindima 2021, um testemunho em primeira mão

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Quinta do Noval Port wine, what's new...

 EN/PT


Quinta do Noval 2019 Vintage Port

    A non-classic vintage Port year, nevertheless the viticultural year was, in general, favorable to the vine cycle and grape maturation, although it was also unfavourable in many cases for the structure and body of wines - see the: the 2019 Douro harvest report - Quinta do Noval made the decision to produce and declare the two house classic and historic vintage Port wine brands, Quinta do Noval and Quinta do Noval Nacional. There have been consecutive years of vintage Port wine declarations at Quinta do Noval, to which the house defends that if the wines have the "Vintage" quality, then quite simply the wines are declared as Vintage Port, if they don't have "Vintage" quality, they are not declared, and this regardless of decisions and declarations of other producers, in a historic Port wine house where the priority is still Vintage port.

more here: Quinta do Noval Vintage Port wine chart

    This 2019 Vintage Port includes a selection of wines from 13 different Quinta do Noval vineyard parcels. It was vinified with the traditional techiques, foot treading the grapes in the granite "lagares" of the old winery, reserved to Port wine production.

    It's still a newborn, at the beginning of its long life. It has a dark, dense and heavy ruby color, for what the contribution of the Sousão grape variety was certainly decisive and which, in addition to color gave it the necessary acidity.

    It has a very good aromatic intensity, balsamic aromas, namely, notes of mint and eucalyptus, following the Quinta do Noval Vintage Port profile, which are aromas that also express freshness. The set of aromas includes fresh black fruit, black berries and blueberries, which are then repeated on the palate, with a spicy taste. A good complexity, balanced and harmonious, concentrated with excellent tannin structure and good acidity. It has a very long finish. If we had to choose one feature to define without a doubt it would be "elegance".

    Always produced in very limited quantities.


Quinta do Passadouro Porto Vintage 2019

    It is the first edition of the Quinta do Passadouro vintage Port of its recent "Quinta do Noval" cycle, which began precisely in 2019. The Quinta do Passadouro is located very close to Quinta do Noval, also on the left bank of the river Pinhão, in the valley where this river flows, just after and upstream the Vale de Mendiz village and further down the valley, in this area historically famous for the Port wines it produces.

    The grapes come from a field-blend of 30 traditional Douro grape varieties from the Quinta do Passadouro old vineyards. Here, too, the traditional winemaking processes are maintained.

    When compared to the prevoius Quinta do Noval Vintage Port of the same year, which is inevitable when tasted at the same time, the differences in style become more pronouced. It has a very dark and concentrated ruby color. Its aroma is warmer, more rustic, rougher, and at this initial stage, less exuberant and aromatically contained. Here the aromas are riper black fruit, black berries and ripe black plums, hints of cocoa and some smoky nuances. Complex, with a solid structure and lots of tannins, ripe tannins, with an intense and long finish. It will definitely accompany us for many years to come and it will be interesting to follow its evolution.

Quinta do Noval Colheita 2007 Tawny Port

    Another new feature this year in the Quinta do Noval portfolio. A 2007 single harvest Tawny Port bottled in 2021 (with 14 years ageing in wood casks).

    A Colheita Tawny Port wine, like a Vintage Port, is a wine produced from grapes originating from a single harvest or vintage, however, unlike Vintage Port that ages in bottle, the Colheita Tawny, then undergoes a specific ageing process in heavily used oak casks, in this casa with a capacity of 640 liters, for several years until finally bottled (the Port wine special categories regulation refers a minimum ageing period of seven years necessary for the approval of this category).

     At Quinta do Noval, the Colheita Tawny Ports are usually bottled with a minimum age of 13 years. The indispensable reference to the bottling date is on the bottle back label. This is the first bottling of the 2007 harvest, which was also a classic vintage Port year, the remaining stock will be kept in casks for later bottlings with longer ageing periods, in which it will gain more complexity.

    In the case under consideration, its oxidative evolution gave it a beautiful bright red color with orange streaks. It has an intense and rich bouquet, still with the presence of fresh fruit and then the dried fruits... It has freshness, despite the hot 2007 summer, with mild temperatures in August and hot days in September, balanced by cool nights which were favorable during the grape maturation stage. The wine preserved that element of freshness that is very present and which is one of its main characteristics. There are still some fresh fruit aromas present, and then the notes of evolution, dried fruits, figs, raisins and almonds and hints of spices, peppery, with a good acidity, complex and rich, in a tempting set with a long after taste. Very good and a reference in this special Port wine category.

    Other previous Quinta do Noval Colheita Tawny Ports to register: 2005, 2003, 2000, 1997 and 1995. 

more about Colheita / Single harvest Tawny Port: Vieira de Sousa, a journey through the history of its Colheita Tawny Ports

    Note: Port wine serving temperature is not indifferent, quite on the contrary, a correct temperature is fundamental for its correct perception and appreciation. For Vintage Ports, the reference temperature should be the so-called "cellar temperature", i.e., around 16 to 17ºC. The Colheita Tawny Ports should be served at a lower temperature, around 10 to 12ºC. 

"Coravin" system in action.

Os vinhos do Porto da Quinta do noval, o que há de novo...

Quinta do Noval 2019 Vintage Port

    Em ano de Porto vintage não clássico, num ano vitícola que foi, em geral, favorável ao ciclo da vinha e à maturação das uvas, mas menos favorável para a estrutura e corpo dos vinhos - vêr: Douro, o relatorio da vindima 2019 - a Quinta do Noval tomou a decisão de produzir os vintages clássicos das marcas históricas da casa, Quinta do Noval e Quinta do Noval Nacional. No passado recente têm sido anos de declarações vintage consecutivas, que a Quinta do Noval defende explicando que, se a qualidade vintage existe, então muito simplesmente o vinho é declarado, se não tem qualidade vintage, não é declarado, independentemente das decisões e declarações de outros produtores, numa casa histórica de vinho do Porto onde a prioridade ainda é o Porto vintage.

mais aqui: Quinta do Noval Vintage Port wine chart

    Integram este vintage uma selecção de uvas de 13 parcelas de vinha diferentes da Quinta do Noval. É vinificado com as técnicas tradicionais, pisa a pé das uvas nos lagares de granito da antiga adega da quinta, reservada aos vinhos do Porto.

    É ainda um recém-nascido, apenas no início da sua longa vida. Com uma côr rubi escura, carregada e densa, para o que contribuiu a casta Sousão que, para além da côr lhe confere a necessária acidez.

    Com uma boa intensidade aromática, com aromas balsâmicos, entenda-se, notas de menta e eucalipto, de acordo com o perfil dos vintages da casa, aromas que também expressam frescura, depois as notas de fruta preta, amoras e mirtilos, fruta fresca que se repete na boca, apimentado. É notável a complexidade e harmonia, concentrado, com uma excelente estrutura de taninos e boa acidez. Com um longo final. Se tivéssemos que escolher uma palavra para o definir seria certamente "elegância".

Quinta do Passadouro Porto Vintage 2019

    É a primeira edição do vintage Quinta do Passadouro, da sua mais recente e nova fase "Quinta do Noval", que se iniciou  precisamente em 2019. A localização da Quinta do Passadouro é próxima da Quinta do Noval, também na margem esquerda do rio Pinhão, logo depois de passar Vale de Mendiz e mais em baixo no vale, numa área historicamente famosa pela qualidade do vinho do Porto produzido.

    As uvas para este vintage têm origem num field-blend composto por 30 castas tradicionais do Douro, das vinhas velhas da quinta. Também aqui se mantém, na adega da quinta, os métodos tradicionais no processo de vinificação.

    Quando comparado e provado em simultâneo com o vintage da Quinta do Noval do mesmo ano, as diferenças de estilos tornam-se mais evidentes. Com uma côr rubi de tom muito escuro, carregado. Tem um aroma mais quente, mais rústico e um pouco mais duro nesta fase, mais contido e menos exuberante. Com aromas de fruta preta mais madura, notas de cacau e nuances fumadas. Complexo e com taninos maduros numa estrutura sólida, com um final intenso e longo. Vai certamente acompanhar-nos durante muitos anos e será interessante acompanhar a sua evolução. 

Quinta do Noval Tawny Colheita 2007

    Outra das novidades deste ano, um Tawny Colheita engarrafado em 2021, com 14 anos de envelhecimento em cascos.

    O vinho do Porto Colheita Tawny, tal como o Vintage, é produzido a partir de uvas de uma só vindima ou colheita, no entanto, as afinidades ficam por aqui, uma vez que ao contrário do Porto vintage que envelhece no ambiente redutor da garrafa, o Colheita Tawny tem um processo de estágio e envelhecimento específico em madeira, em ambiente oxidativo, em contacto com o oxigénio, em cascos de carvalho muito usados e com uma capacidade para 640 litros, durante vários anos até ao momento do engarrafamento (o regulamento das categorias especiais de vinho do Porto exige um mínimo de sete anos).

    Na Quinta do Noval, os Colheita Tawny são engarrafados com mais idade, com pelo menos 13 anos de envelhecimento. A indispensável referência à data de engarrafamento está no contra-rótulo da garrafa.

    Este é o primeiro engarrafamento da colheita de 2007, que foi também um ano de declaração generalizada de Porto vintage, o restante stock será mantido em cascos para engarrafamentos posteriores com estágios mais prolongados, em que vai ganhar mais complexidade. Engarrafado em pequenas quantidades, 3000 nesta edição.

    A evolução oxidativa começa por se reflectir na côr, de um bonito vermelho alaranjado brilhante, com laivos côr de laranja. Com um bouquet intenso e rico, com alguma fruta fresca e depois a surgirem também os frutos secos... O vinho tem frescura, apesar do verão quente de 2007, com temperaturas amenas em Agosto e dias mais quentes em Setembro, equilibrados por noites frescas e maturações equilibradas, o vinho preservou essa frescura que está bem presente e que é uma das suas características principais. Ainda tem presentes alguns aromas de fruta fresca, mas depois as notas de evolução, figos secos, uva passa e amêndoa e sugestões de especiarias, ligeiro apimentado, com boa acidez, complexo e rico, num conjunto guloso com um final persistente. Muito bom e uma referência nesta categoria de vinho do Porto.  

    Anteriores Colheita Tawny da Quinta do Noval a registar: 2005, 2003, 2000, 1997 e 1995.

mais sobre vinhos do Porto Colheita Tawny: Vieira de Sousa, uma viagem pela história dos Tawny Colheita

    Nota: não é indiferente a temperatura de serviço ou prova dos vinhos do Porto, muito pelo pelo contrário, é fundamental para a sua correcta percepção e apreciação. Para os vinhos os Porto Vintage, deve ser referência a chamada "temperatura de cave", i.e., cerca de 16, 17ºC. no caso dos Colheita Tawny, um pouco menos, 10 a 12ºC. 

©Hugo Sousa Machado

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