sexta-feira, 27 de março de 2026

Van Zellers & Co., um espiríto renovado (II).

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Passado, presente, tradição e modernidade. 

Resumo:  

Parte II:

  1. A vinificação. O elegio dos métodos tradicionais. O estágio e o envelhecimento dos vinhos do Porto. 
  2. Os vinhos que contam histórias. Os vinhos do Porto, as raridades. Os vinhos D.O.C. Douro.
  3. Os mercados. Volume de negócios e exportação.
  4. As reflexões sobre o futuro. O futuro da região. O vinho do Porto. Os vinhos D.O.C. Douro. 

       A adega em São João da Pesqueira.

(publicado previamente e acessível aqui: Van Zellers & Co.. Parte I)

Parte I:

  1. Como tudo começou, uma viagem pela história da família e da Van Zellers & Co.. As origens e as referências históricas. 
  2. Cristiano Van Zeller, o percurso de vida no Douro. Antes do “Novo Douro”, a aventura dos vinhos tranquilos da região. Os Douro Boys. 
  3.  A actualidade. O relançamento e a nova vida da Van Zellers & Co.. A nova geração. Projectos futuros.
  4.  Novos conceitos e uma nova linguagem. 
  5. Conhecer as vinhas onde nascem os vinhos. O factor VV, a importância das vinhas velhas, uma herança viva. A caracterização das vinhas. 
  6.  A viticultura. Preservação e sustentabilidade. As técnicas tradicionais. A curetagem. Viticultura histórica.


Parte II. 

1. A vinificação. O elogio dos métodos tradicionais. O estágio e o  envelhecimento dos vinhos do Porto. 

    A todos os cuidados na vinha corresponde um trabalho igualmente empenhado na vinificação. Tal como sucede na viticultura, apesar de todos os avanços científicos na enologia que têm permitido muitas melhorias nos procedimentos de vinificação, acredita-se firmemente na importância dos conhecimentos empíricos ancestrais, as técnicas de vinificação tradicionais da região, que se mantêm há séculos, transmitidos de geração em geração, muitas vezes dentro da mesma família, e que são igualmente um factor importante e original da enologia do Douro. 
 
    Após a vindima manual e uma selecção preliminar na vinha, a recepção, triagem e selecção dos cachos de uvas realiza-se na adega em São João da Pesqueira. Seguidamente, no caso dos vinhos D.O.C. Douro da casa, os cachos são desengaçados e nesse processo há um ligeiro e suave esmagamento da película das uvas e algum mosto é libertado antes das uvas entrarem nos lagares.
    Os "novos" tradicionais lagares de granito da casa têm uma capacidade entre os 3000 e os 4000kg. São recentes e neles ocorreram as primeiras vinificações a cem por cento, para todos os vinhos tintos na vindima de 2022. Nas vinificações das vindimas anteriores, na colheita de 2020 e algumas de 2021, uma vez que a nova adega não estava ainda concluída, foi necessário recorrer à adega e aos lagares do amigo José Maria Calém (em Vilarinho de Cotas, Alijó) que contou também com o apoio da equipa de pisadores nos lagares, assim como do enólogo Duarte Calém. 
 
    O complexo de castas que existe nas vinhas é vindimada ao mesmo tempo e a combinação acontece nos lagares (ou nas cubas de fermentação) e o vinho resultante é muito mais rico e complexo do que se as diferentes castas fossem fermentadas separadamente e o lote se fizesse posteriormente. A experiência de muitos anos de vindimas demonstrou que o lote é sempre melhor, preferencialmente de vinhas velhas com as diversas variedades misturadas na vinha. Consegue-se uma concentração acrescida e a combinação de castas confere maior complexidade e camadas de aromas e sabores adicionais, o que não aconteceria se, por exemplo, misturássemos a mesma quantidade e a mesma proporção das mesmas castas após a fermentação. Nas vinhas velhas fermenta-se tudo e o lote é concluído depois. Nos casos que que isso não é possível, o lote é realizado na adega.

    Na van Zellers & Co. não se produzem vinhos monocasta, considera-se o Douro tradicional que está relacionado e que tem tudo a ver com o lote.

 

    No momento da pisa da uva no lagar, procura-se valorizar o que a natureza criou seguindo o método da pisa tradicional. De acordo com Cristiano van Zeller, os vinhos que são pisados a pé e fermentados em lagar têm uma suavidade e uma intensidade muito superiores em relação àqueles que, com as mesmas castas, são feitos em cubas de aço inox. Pela sua experiência, essa qualidade dos vinhos do Douro feitos em lagar tem a ver com a diferença que existe entre uma cuba e um lagar de granito, da superfície de contacto e da extensão da superfície de contacto entre o líquido e as películas, na capacidade de oxigenação durante a fermentação num lagar, que é um tanque aberto e onde existe sempre um efeito oxidativo, de oxigenação do mosto que é muito relevante. Depois, temos que considerar que a pisa a pé é muito intensa e muito suave ao mesmo tempo, a extração é absolutamente extraordinária em relação ao que se obtém por outros meios mecânicos. Empiricamente os resultados são sempre melhores. 

    A co-fermentação das diversas castas é fundamental e permite que o lote se concretize no lagar e é essa combinação das diferentes variedades misturadas na fermentação que define o perfil e a personalidade da parcela de vinha e do vinho. Esta fermentação é natural e espontânea, com as leveduras naturais indígenas selvagens que são as que estão naturalmente presentes desde sempre nas vinhas e também na adega, que estão adaptadas ao local e que melhor exprimem a tipicidade do terroir duriense.

A vinificação dos vinhos brancos D.O.C. Douro. As uvas vindimadas à mão depois são seleccionadas e desengaçadas antes da prensagem ligeira na prensa pneumática. O desengace, ou seja, o processo de separar as uvas dos caules, é essencial para retirar os taninos indesejados dos vinhos e contribuir para uma estrutura suave e intensa. Apenas o primeiro mosto é aproveitado e decantado a uma temperatura de 10ºC durante 24 horas para cubas de aço inox com uma capacidade de 2500 litros. Depois o mosto é transferido para as barricas de 225 e 500 litros de capacidade, onde fermenta durante mais de 25 dias com temperaturas controladas entre 10º e 14ºC e envelhece nas mesmas barricas durante mais de oito meses com battonage. No caso especial do vinho VZ branco, cada casta é fermentada separadamente, com a utilização de barricas de carvalho francês novas e usadas onde o vinho envelhece durante nove meses com battonage.

A vinificação dos vinhos tintos D.O.C. Douro. Depois da vindima manual e da escolha das uvas dá-se o desengace, operação em que há um suave esmagamento das películas, antes da entrada nos lagares de granito onde as uvas são pisadas a pé, de acordo com os antigos métodos de vinificação da região e é fermentado naturalmente com as leveduras indígenas. As diversas castas fermentam em conjunto assegurando o equilíbrio e o carácter final do vinho.

 

A vinificação dos vinhos do Porto. Na vinificação dos vinhos do Porto tintos, depois da triagem prévia, os cachos, sem desengace, entram nos lagares e segue-se a pisa a pé tradicional e depois a fermentação durante 2 a 5 dias, com cerca de 15% do total da aguardente vínica, com o objectivo de macerar as uvas a temperaturas mais baixas e durante mais tempo e homogeneizar o conjunto, antes da interrupção da fermentação. A pisa a pé decorre durante todo o período da fermentação. Quando o nível de açúcar residual pretendido é atingido, então suspende-se a fermentação com a adição da restante aguardente vínica, no lagar e num único momento. Em seguida, o vinho permanecerá no lagar por cerca de dois dias com uma pisa ligeira duas vezes por dia por cerca de dez minutos. Paralelamente é utilizada uma prensa vertical manual tradicional para a prensagem da matéria sólida dos lagares e extração do vinho de prensa que vai contribuir para o enriquecimento da a côr e tanino. O vinho é então transferido (juntamente com o vinho resultante da prensagem), para cubas de inox onde passa o primeiro Inverno. Depois passa para antigas barricas de carvalho, com capacidades muito variáveis, entre os 600 e os 10.000 litros, para um estágio que decorrerá por 18 a 24 meses. Só depois de dois ou três anos é tomada a decisão sobre o destino do vinho, Tawny ou Ruby. No caso dos LBV e restantes vinhos do Porto tintos, o vinho é transferido para a cuba de armazenamento a que se segue um período de estágio em cascos muito antigos – com mais de cem anos – e pequenas cubas de aço inoxidável.

Vinificação do vinho do Porto branco. Todas as uvas brancas, depois de escolhidas são também pisadas a pé antes da fermentação, juntamente com 10% do total da aguardente vínica que será adicionada no momento da fortificação – este processo permite uma maceração das uvas a temperaturas mais baixas durante mais tempo. A fortificação é realizada num único momento quando é adicionada a aguardente vínica ao vinho que está em fermentação nos lagares. Neste ponto, a pisa ajuda a uma melhor integração e homogeneização do conjunto. O mosto e a aguardente permanecem no lagar durante mais dois dias, com uma ligeira pisa duas vezes por dia durante sensivelmente dez minutos. O resultado final, juntamente com o vinho de prensa (da prensa tradicional) é armazenado em cubas de inox e depois envelhecerá em cascos de madeira muito antigos com mais de 100 anos (que lhe dará a necessária complexidade) e também em pequenas cubas de inox durante um período mínimo de dois anos. O lote final é elaborado antes do engarrafamento.

    Os estágios em madeira e a evolução dos vinhos do Porto são sempre acompanhados com grande proximidade, os vinhos são provados com frequência para assegurar o equilíbrio e a consistência pretendidos e são feitos os ajustes necessários ao volume das barricas. Os vinhos são refrescados e corrigidos com pequenas adições para equilibrar as evaporações do álcool e preservar a frescura. Quanto mais velhos são, maior a necessidade de acompanhamento constante. 

    Na adega da Van Zellers & Co. cada barrica onde envelhece vinho do Porto tem o seu próprio carácter particular que imprime à côr, ao aroma, ao sabor e à textura dos vinhos. 

    Os vinhos do Porto mais antigos, a colecção dos Tawny Colheita velhos e muito velhos, que incluí também os vinhos raros do século XIX, a partir de um determinado momento de envelhecimento em barrica e quando, de acordo com o critério definido e o estilo pretendido, se entende que já oxidaram o suficiente, são transferidos e mantidos em cubas de inox de menor capacidade (600 litros), não totalmente cheias (aproximadamente entre metade a dois terços da capacidade total, o que ainda permite o prosseguimento de algum processo oxidativo mínimo), como método para preservar os vinhos, um meio original e imaginativo que permite manter a frescura, mas sobretudo reduzir radicalmente a perda natural de volume devido às evaporações de água e álcool, como acontece quando os vinhos são mantidos em barricas de madeira, reduzindo também a necessidade de ajustes e correcções, que nestes casos são mínimas. São engarrafados de acordo com as encomendas.

 

    No envelhecimento de alguns vinhos do Porto existe outro pormenor curioso e original digno de registo. A Van Zellers & Co. mantém uma parceria com uma empresa francesa especializada em renting e venda de barricas novas e usadas. Assim, com este sistema, alguns dos vinhos do Porto novos, entre o ano de colheita imediatamente anterior e vinhos com até 3 e 4 anos de estágio, são envelhecidos em barricas muito usadas (com 3 a 4 anos de uso) e convenientemente avinhadas, onde anteriormente estagiaram vinhos tintos de Bordéus, que são fornecidas por este parceiro. Esta impressão inicial da madeira vai esbater-se ao longo dos anos. Depois do período de estágio nos armazéns da casa, que é variável entre vários meses a alguns anos, as barricas são posteriormente vendidas a empresas produtoras de whisky, bourbon, rum e cerveja artesanais. 

 

2. Os vinhos que contam histórias. Os vinhos do Porto, as raridades. Os vinhos D.O.C. Douro

A Van Zellers &Co. “foi sempre uma companhia de vinho do Porto, com vinho de mesa”.

“É impensável estar no Douro e não ter vinho do Porto” e o desígnio é continuar com esta grande tradição e a longa história do vinho do Porto na região, valorizando e honrando a tradição familiar. Ao longo dos anos a casa tem vindo a empreender um grande investimento - que teve início em 2007 - para restabelecer os stocks de vinhos do Porto, em quantidade e em diversidade, em especial os tawnies muito velhos e este investimento é uma demanda contínua que terá que se manter durante algum tempo para permitir conservar um alto nível de qualidade e uma base alargada que é fundamental para os lotes futuros. Para constituir o stock de vinhos para os Porto Tawny 10, 20, 30, 40, 50 e 80 anos, vai ao mercado dos produtores de vinho que têm vinhos velhos e também aos leilões da Casa do Douro, sempre que a oportunidade aparece.

    Tem sido realizado um reinvestimento permanente nos stocks de vinhos do Porto velhos que são limitados pela sua própria essência, pelo menos até que os vinhos próprios que se produzem todos os anos e que se vão envelhecendo na adega atinjam os níveis de envelhecimento pretendidos, e o benefício presente é o suficiente para as necessidades da Van Zellers & Co. na actualidade e no futuro.

    Prevê-se também que, nas categorias de vinho do Porto reserva White, Ruby, Tawny e LBV, num prazo de cinco a seis anos, exista alguma capacidade de crescimento e aumento do volume para engarrafamento, em seguida essa capacidade aumentará para os vinhos do Porto Tawny 10 anos, assegurando sempre um nível de stock relevante. 

Os vinhos do Porto criados pela mão do homem.

Van Zellers & Co. Porto White e Porto Reserva White, Porto Reserva Ruby e Porto Reserva Tawny.  

O Porto White é elaborado a partir de um lote de 15 variedades diferentes de de castas brancas provenientes de vinhas velhas e também vinhas mais recentes, localizadas na sub-região do Cima Corgo, principalmente na área de Murça. Descrevemos atrás que, são seguidos os métodos tradicionais de vinificação, neste estilo de vinho do Porto, que não diferem muito dos utilizados nos vinhos do Porto tintos e são do mesmo modo envelhecidos no mesmo tipo de pipas, muito antigas com mais de cem anos e uma parte em pequenas cubas de aço inox, por um período mínimo de dois anos antes da elaboração do lote final. Com aromas e sabores dominantes de pêssego e laranja. O Porto Reserva White, passa por um período de envelhecimento mais longo, seis anos. Por sua vez, o Porto Reserva Ruby, é um ruby sério, produzido com cuidado e seguindo os métodos tradicionais de vinificação, como todos os vinhos do Porto da casa. Depois de um estágio mínimo de três anos, o lote final é elaborado entre os vinhos do Porto mais jovens, no ponto em que melhor podem revelar a característica intensidade e pureza da fruta fresca, frutos vermelhos e pretos e uma boa acidez. O Porto Reserva Tawny, tem origem nas uvas de mais de 30 castas tradicionais da região de diferentes de vinhas velhas e mais recentes vinhas monocasta localizadas sobretudo nos vales dos rios Pinhão e Torto. É composto a partir de um lote de vinhos do Porto com uma idade média de seis anos, envelhecidos em cascos de madeira muito velhos.

Os Porto Tawny com indicação de idade: Van Zellers & Co. 10 e 20 years  old Tawny Porto, 30, 40, 50 e 80 years very old Tawny Porto.

    Menos vinho e mais Porto. São os vinhos que representam o lote no sentido mais alargado do termo, são antes de mais um lote de muitas variedades de castas diversas, e depois é constituído por um lote de vinhos de diferentes colheitas de diferentes anos. É o homem, com a sua experiência e conhecimento acumulado de muitos anos, que escolhe os diversos componentes do lote final que será engarrafado. 

Os aromas são uma memória que se guarda toda a vida” e esta memória é um elemento insubstituível que é transmitido às sucessivas gerações numa casa de vinho do Porto. O desafio que este estilo de vinho do Porto representa para o enólogo ou master blender é assegurar um perfil consistente e reconhecível ao longo dos anos de acordo com a idade média mencionada no rótulo. Na Van Zellers & Co. faz-se um lote por ano.

    Os Porto Tawny com indicação de idade são produzidos a partir de 30 castas diferentes, tradicionais do Douro, com origem em vinhas velhas de diferentes localizações,  principalmente nos vales dos rios Torto e rio Pinhão e na sub-região do Baixo Corgo que, historicamente, sobretudo no caso dos vinhos do Porto Tawny mais envelhecidos, tinha características próprias e produzia vinhos menos concentrados e mais frescos que eram excelentes para produzir vinhos do Porto deste estilo, destinado a ser envelhecido por muitos anos. As uvas são vindimadas manualmente e tratadas seguindo os processo tradicionais de vinificação, como descrevemos no ponto anterior para os vinhos do Porto. Envelhecem em pipas de madeira muito antigas, com mais de 100 anos, até ao momento da composição do lote final.

   O Porto Tawny 10 anos tem uma produção limitada a um máximo de 6000 garrafas todos os anos. É um Tawny com boa estrutura e profundidade. O Tawny 20 anos, 3000 garrafas anuais, o Tawny 30 anos, 1500, do Tawny 40 anos são engarrafadas 700 garrafas, do Tawny 50 anos, a reduzida quantidade de 150 garrafas e o Tawny 80 anos, com uma quantidade de apenas 75 garrafas por ano que, neste caso, são engarrafadas de acordo com as encomendas.

Van Zellers & Co. 50 year Very Old Tawny Port. É uma composição de vinhos do Porto muito raros e envelhecidos longo de 50 anos, em cascos de carvalho muito antigos. O Van Zellers & Co. 80 year Very Old Tawny Port é o mais recente tawny com indicação de idade muito velho. Um vinho singular elaborado a partir de uma cuidada selecção de lotes de vinhos muito velhos escolhidos por Cristiano van Zeller, que envelheceram oito décadas em cascos de carvalho. O critério foi seleccionar apenas vinhos que mantiveram a frescura e uma imensa complexidade que lhe é característica.

    No conjunto, a progressão da indicação de idade, permite seguir e avaliar a evolução da côr, dos aromas e sabores que se vão intensificando e concentrando progressivamente, os vinhos vão ganhando complexidade e vão surgindo uma profusão de aromas muito particulares com sugestões dominantes, ainda de frutos de bosque e frutos secos mais evidentes no Tawny 10 anos, depois notas de frutos secos e flôr de laranjeira, figos maduros e mel no Tawny 20 anos, nozes, frutas com mel, damascos e especiarias mais exuberantes no Tawny 30 anos. No Tawny 40 anos, o aroma é mais intenso, rico e poderoso, uva passa, especiarias, caramelo e chocolate. O Tawny 50 anos, é mais exuberante, os aromas são ainda mais intensos e profundos, com a presença de figos secos e amêndoas, tâmaras, ameixas e pimenta preta, madeira e tabaco. A expressão do Tawny 80 anos apresenta muita complexidade e profundidade com várias camadas de sabores, especiarias, frutos secos caramelizados, madeira exótica, toffee, casca de laranja cristalizada, tabaco, com uma acidez extraordinária e um final interminável.

As cubas de inox de pequena capacidade (600 litros) onde se preservam os vinhos do Porto muito velhos depois de atingirem o ponto de envelhecimento desejado.
 

Os vinhos do Porto criados pelo tempo.

    O valor do tempo é um elemento fundamental do vinho do Porto, que permite a sua evolução, as alterações na estrutura e corpo, nos aromas primários dos vinhos jovens, suavizar os taninos. Durante o envelhecimento dos vinhos do Porto tawny, que passam toda a sua vida em barrica e modificam-se completamente com o tempo, a fruta fresca inicial evolui para outros aromas e sabores, para frutos secos, casca de laranja, flôr de laranjeira, toffee, caramelo, mel, especiarias, etc.

    O tempo no vinho do Porto é também um tempo diferente em que o seu entendimento é distinto, não existe curto prazo e há uma continuidade que não é concreta e evidente, não é clara nem controlável a noção e a percepção do tempo que se tem nos momentos de transformação e evolução do vinho do Porto. Os vinhos do Porto com o tempo transformam-se de tal maneira que existem surpresas permanentes.

É um tempo que nos ultrapassa largamente, um tempo finito e infinito ao mesmo tempo. Envelhecer os vinhos com o tempo suficiente numa diversidade infinita.” CvZ.

Os Tawny Colheita muito velhos, Single Harvest Very Old Tawny Ports. Na Van Zeller & Co., são vinhos de uma única colheita, vindima ou ano, são a expressão das características do ano em que nasce e têm uma individualidade própria que os distingue dos Tawny com indicação de idade, não é portanto, um vinho de lote, sempre foram uma tradição das casas de vinho do Porto e representam um património acumulado. São vinhos que só o tempo em barrica pode fazer, modificar e formar. Os vinhos do Porto Tawny Colheita da Van Zeller & Co. nunca envelhecem menos de 25 a 30 anos e considerando os diferentes tempos de envelhecimento temos grandes variações de perfil. Obviamente, quanto mais tempo de envelhecimento, mais complexos, ricos e mais concentrados os aromas e sabores e melhores e mais valorizados são.

    Existe na adega uma colecção variada e importante de vinhos do Porto Very Old Tawny Colheita mais antigos, das vindimas de 1934, 1935, 1950, 1968, 1976 e 1989

Van Zellers & Co. Single Harvest Very Old White Porto 1940. É um vinho do Porto Colheita branco, da colecção dos vinhos do Porto muito velhos da casa, envelhecido durante muitos anos separadamente e sem mistura com quaisquer vinhos de outras colheitas, em barricas de carvalho antigas. Também constitui o porfolio, outro Porto Colheita branco da vindima de 1968.

    Neste capítulo, outro propósito são também as edições especiais destes vinhos do Porto, tawnies velhos, raros e muitas vezes de apenas algumas centenas de garrafas, que convocam memórias e história. 


As raridades. 

Van Zellers & Co. VV Old Tawny Porto. The Rare XIX Port Collection. Representam um valioso e singular património que a casa tem em stock já há alguns anos, expressos numa trilogia de vinhos do Porto raros do século XIX, uma celebração da história do Douro e o testemunho de vidas de dedicação e paixão. Uma edição muito limitada, até 75 garrafas de cada uma de três colheitas diferentes, 1888, 1870 e 1860, apesar da data não estar indicada no rótulo, uma vez que não têm esse registo no IVDP e serem vinhos difíceis de datar, contudo, de acordo com os registos internos pensa-se que correspondem às datas indicadas. São vinhos que transmitem uma história de admirável resistência ao tempo, da forma como evoluíram e das transformações por que passaram. Obviamente são considerados vinhos raríssimos, para além da origem no séc. XIX, as quantidades são reduzidíssimas e a qualidade é magnífica. 

(Van Zellers & Co.)
    Destes Tawny muito, muito velhos, não existem registos de que tenha sido realizada qualquer intervenção ou refrescamento ao longo dos anos. São vinhos admiravelmente complexos, com aromas e sabores enormemente concentrados e de uma riqueza e profundidade impressionantes. Exprimem a grandiosidade que os vinhos do Porto muito velhos podem atingir e são mais do que uma mera selecção de vinhos, são também uma jornada através do tempo, associada a momentos históricos e familiares significativos, seguindo os registos da casa:

1860, Crafted by Liberty, é o mais antigo vinho em stock. Foi o ano em que foi eleito Abraham Lincoln o 16º presidente dos Estados Unidos da América, e que anunciou ventos de mudança também este Porto Very Old Tawny encarna o espírito inabalável da liberdade.

1870, Crafted by Family, foi o ano do casamento dos trisavós de Cristiano van Zeller, representa a família que iniciou um legado de gerações e evoca a força duradoura dos laços familiares.

1888, Crafted by Poetry, assinala o nascimento de Fernando Pessoa e transmite o espírito criativo do grande escritor português e a analogia dos seus versos com a composição da complexidade de aromas e sabores do vinho e a partilha.

 “Através da Liberdade, escolhemo-los, Através da Família, cuidámos deles, Através da Poesia, partilhámo-los”.

    Esta edição especial, limitada a 75 caixas com a colecção dos três vinhos, foi um projecto que implicou uma série considerável de detalhes importantes, com a direcção criativa de Rita Rivotti e o design de Pedro Roque, começando com o modelo das garrafas antigas sopradas à mão, as caixas lacadas feitas à mão, incluem um decanter em cristal conforme o modelo histórico da Confraria de Vinho do Porto, resultado de uma parceria com a Vista Alegre Atlantis, e três gargantilhas tradicionais em prata, feitas à mão, concebidas pelos mestres artífices de metais nobres da Leitão & Irmão (os antigos joalheiros oficiais da coroa portuguesa). Os vinhos foram engarrafados em Março de 2024.  Em Outubro de 2024, esta edição foi premiada com o Gold Award desse ano, como reconhecimento pela apresentação e embalagem especial.

(Van Zellers & Co.)

   Está planeado o lançamento de outro vinho do Porto especial, um Tawny velho que celebrará os 400 anos da empresa, constituído por um lote de vinhos dos anos 1860, 1870, 1950 e 2000, do qual serão engarrafados 400 litros. A soma da idade de cada um destes vinhos, em 2020, é igual a 400. É um projecto em que participará o artista plástico português Pedro Cabrita Reis.

O mais importante é o recentrar do foco que nos últimos 30 anos foi sendo feito, mas agora no vinho do Porto”. Cristiano van Zeller

 

Os vinhos do Porto criados pela natureza.

Van Zellers & Co. Late Bottled Vintage Porto (com edições em 2015, 2016, 2017, 2019 e 2020). É um LBV clássico ou de estilo tradicional, não filtrado, produzido a partir de uma selecção de mais de 25 castas tradicionais durienses, com uma predominância de Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinta Roriz, Tinta Barroca, Tinta Amarela, Sousão e muitas outras, procedentes de vinhas velhas. Como referimos, são utilizados os métodos tradicionais de vinificação. Durante a pisa a pé das uvas e antes da fermentação é adicionado 10% do total da aguardente vínica que será acrescentada na fortificação final, é um método utilizado que permite macerar as uvas a temperaturas mais baixas e durante um período de tempo mais longo. Seguidamente, no momento em que o mosto está pronto para a fortificação é acrescentada a restante aguardente vínica no lagar e este conjunto conserva-se no lagar durante dois ou três dias com uma pisa ligeira duas vezes por dia durante cerca de dez minutos para garantir uma melhor integração do mosto com a aguardente vínica. O vinho passa de seguida para uma cuba de inox, a que se junta o vinho de prensa, para conseguir uma adequada homogeneização, antes da fase de estágio em tonéis de carvalho muito antigos com cerca de 100 anos de idade e pequenas cubas de inox, por um período de 42 a 48 meses. É um LBV com um perfil característico, concentrado de frutos pretos e vermelhos, com uma boa estrutura e bom equilíbrio, elegante e com boa persistência. Envelhecerá bem em garrafa.

Van Zellers & Co. (Ocean) Crusted Port. É uma categoria especial de vinho do Porto de qualidade superior, tradicional, pouco comum e muito pouco conhecida, se considerarmos as quantidades produzidas e o número reduzido de produtores dedicados a este tipo de vinho do Porto. A mais recente proposta da Van Zellers & Co., o relançamento de um Porto Crusted para assinalar os 500 anos de Luís de Camões, tem vários detalhes próprios, desde logo é um vinho totalmente da colheita de 2021 elaborado a partir de um lote de duas fermentações de duas parcelas diferentes de vinha, um destes vinhos estagiou em tonel durante dois anos e o tempo restante em aço inox, o outro vinho foi sempre mantido em cuba de aço inox. Depois, é um vinho do Porto criado pelo mar, com a singularidade da totalidade do stock desta primeira edição ter sido submersa no Atlântico (no passado dia 17 de Março de 2025), nas mesmas condições da edição do Porto Vintage 2020 "Ocean Aged", mas por um período mais longo de tempo. Foram engarrafadas 551 garrafas em 2024, que voltará a assomar à superfície em 2027 para depois passarem mais um ano em garrafa.

Van Zellers & Co. Vintage Porto. O Porto Vintage é a representação de um vinho “criado pela natureza” em toda a sua essência e poder, é “um dos vinhos mais naturais que há”, em suma, é a natureza numa garrafa. É a fruta pura e intensa que sentimos nos vintages mais novos.

    O potencial Porto vintage tem origem sempre nas mesmas vinhas referência e todos os anos se vive essa expectativa. Com base numa cuidadosa selecção das uvas, que são as melhores de cada ano das melhores parcelas de vinha, de um lote de mais de 25 castas tradicionais do Douro provenientes de vinhas velhas com mais de sessenta anos localizadas no vale do rio Torto, e numa parte da vinha de Valença do Douro (localizada a maior altitude) utilizada habitualmente nos vinhos do Porto da casa, que são vinificadas com os métodos tradicionais. Até ao momento do engarrafamento e apesar da temperatura controlada dos armazéns onde estagiam em São João da Pesqueira, são retirados das barricas e tonéis para cubas de inox, onde passam o verão. São engarrafados sem qualquer colagem ou filtragem.

 

    A edição especial do Porto Vintage 2020 celebrou os 400 da Van Zellers & Co. e das 2800 garrafas produzidas, 102 foram submersas no Atlântico, no mar de Sines para um período de estágio, no que se designou “Vintage Ocean Aged”, é o primeiro vinho do Porto a estagiar debaixo de água. 

Van Zellers & Co. Vintage Port wine chart 

 

Os vinhos Douro D.O.C.

Vinhos criados pela natureza.

O CV – Curriculum Vitae Douro tinto, um vinho que nasceu com a colheita de 2003 e que é uma referência da região e do país, com a consistência das sucessivas edições ganhou o estatuto de um ícone entre os grandes vinhos do Douro. Produzido a partir das uvas com origem numa vinha única, a vinha das Silvas (vêr na Parte I, o ponto 5). O facto de existir bastante Touriga Francesa misturada contribui muito para o perfil característico deste vinho porque é uma casta que traz frescura ao lote e com um perfil de fruta preta mais notório. As uvas, depois de selecionadas e desengaçadas, são pisadas a pé nos lagares de granito durante 2 a 3 dias. A fermentação decorre nos lagares com temperaturas controladas (de 22 a 27ºC) e durante os 8 a 12 dias de duração há uma pisa a pé mais ocasional para melhor extracção dos taninos, côr e sabores e garantir a melhor integração do conjunto. Concluída a fermentação o vinho passa para as barricas de carvalho francês “Allier” com 225 litros de capacidade, das quais 75% são novas, onde decorre a fermentação maloláctica para uma melhor integração da madeira no vinho e onde depois estagia por um período de 26 meses. Após a definição do lote final e antes do engarrafamento, estagia ainda 2 meses em aço inox (na edição da colheita de 2020).  Estrutura e elegância são o que melhor o define.

    Um vinho distinguido recentemente com 98 pontos atribuídos pelo critico norte americano Mark Squires da Robert Parker- The Wine Advocate, ao CV-Curriculum Vitae tinto 2016. O objectivo é manter ao longo dos anos um vinho consistente e com reconhecimento internacional consolidado com um estilo e características próprias, que também são consequência da experiência dos anos e do conhecimento da vinha.

 

CV – Curriculum Vitae Douro branco. É um dos grandes vinhos brancos do Douro que teve a primeira edição em 2013. Também tem origem numa única vinha, a pequena vinha velha de Fonte da Gafa (localizada a uma altitude de 480 metros) (vêr na Parte I, o ponto 5.).  É produzido a partir de um field-blend de cerca de 10 castas brancas que, depois de seleccionadas, são desengaçadas e levemente prensadas em prensa pneumática horizontal (durante muitos anos, a prensagem decorreu em prensas verticais, com resultados diferentes). O mosto é decantado a frio e fermenta em barricas durante aproximadamente 25 dias, com controlo de temperatura. Segue-se um período de estágio e envelhecimento nas mesmas barricas de carvalho francês, novas e de segundo ano, com 225 litros de capacidade, durante 8 meses. Nas últimas edições o vinho tem sido estagiado em barricas novas com maior capacidade o que permite uma melhor integração da madeira. Os vinhos são acompanhados e provados para a elaboração do lote final antes do engarrafamento. É um vinho expressivo e complexo, com um estilo muito próprio, que tem vindo a melhorar com as sucessivas edições que é também consequência do trabalho de viticultura que tem vindo a ser realizado na vinha. Tem uma grande capacidade de envelhecimento em garrafa.

Vinhos criados pela mão do homem.

VZ Douro tinto. Um “novo” Douro tinto que surgiu em 2007, da vindima de 2004. O vinho é um field-blend com mais de 30 variedades de diferentes castas provenientes de várias vinhas com idades entre os 30 e 80 anos e localizadas em várias zonas da região, em Valença do Douro, vale do rio Torto e Casal de Loivos. As uvas depois de selecionadas são pisadas nos lagares de granito durante entre 1 a 3 dias antes da fermentação que decorre nos mesmos lagares. A fase final da fermentação realiza-se em cubas de aço inox com temperatura controlada (entre 22 a 27ºC) com pigéage manual (método que consiste na submersão regular da camada sólida de películas e grainhas que se forma à superfície do vinho em fermentação). Depois o vinho passa para as barricas de carvalho francês “Allier” (com 225 e 300 litros de capacidade) onde se dá a fermentação maloláctica e posterior estágio durante 26 meses, mantendo as diferentes fermentações separadas até à elaboração do lote final, após o que é mantido durante 2 meses em cubas de inox antes do engarrafamento. Tem um perfil com uma boa estrutura, complexidade e elegância.

VZ Douro branco, que teve a sua primeira edição com a colheita de 2006. As uvas têm origem numa vinha velha com cerca de 70 anos de idade, localizada na área de Murça, a uma altitude de cerca de 500m, com uma mistura de várias castas da região, das quais foi selecionado um lote de castas tradicionais que incluí Viosinho, Rabigato, Códega do Larinho, Gouveio e Arinto, que são desengaçadas e armazenadas a frio antes de serem levemente esmagadas em prensa pneumática. Apenas o primeiro mosto é fermentado e estagiado 9 meses em barricas (de 225 e 500 litros de capacidade) de carvalho francês, novas e com um ano de uso, com battonage. O lote final, que é o elemento principal, é feito posteriormente e antes do engarrafamento. A fruta fresca, os aromas florais, a concentração e uma boa acidez são as características principais. Um vinho que depois de engarrafado evoluirá perfeitamente em garrafa.

Vinhos criados pelo tempo.

VZ 15 gerações Douro tinto. Este vinho é produzido com uvas de cerca de 30 castas tradicionais diferentes com origem em vinhas velhas de diversas localizações da sub-região do Cima Corgo que são pisadas a pé em lagares de granito durante 24 horas e depois fermentam em cubas de aço inox com 5000 kg. de capacidade, durante 8 a 12 dias. De seguida, depois da trasfega e prensagem, passa por um estágio em barricas de carvalho francês de 225 litros usadas (de primeiro e segundo ano) até ao engarrafamento.

Tem a particularidade de celebrar a 15ª geração da família Van Zeller que começou em 2013 e prossegue o seu trabalho neste negócio. Uma edição limitada, em que o desafio da nova geração (Francisca, Cristiano e João van Zeller) foi a decisão e a composição, em conjunto, do lote final a partir das barricas selecionadas por Cristiano van Zeller. Como principais características gerais, é um vinho com complexidade aromática, estrutura e profundidade, com bom potencial para envelhecer em garrafa. 


3. Os mercados. 

Volume de negócios e exportação.

    Actualmente, a Van Zellers & Co., considerando os valores médios dos últimos anos de uvas próprias e uvas compradas transformadas em vindima, a totalidade da produção é 55% de vinho do Porto (incluindo a aguardente viníca) e 45% vinhos D.O.C. Douro, brancos e tintos.

    Entre a produção e vendas, tendo em conta os vinhos do Porto e os vinhos D.O.C. Douro, o total não são mais do que 60 a 70 mil garrafas por ano (como exemplo, em 2022, na totalidade foram produzidas 57.000 garrafas), em 2023 foram vendidas mais de 75 mil garrafas e em 2024 um pouco menos. E este é o propósito a longo prazo, vender um volume razoável de garrafas de muito alta qualidade e com valor acrescentado todos os anos, no máximo cerca de 60.000 garrafas, mantendo uma limitação das quantidades vendidas todos os anos, criando e gerindo a procura para gerar valor ao longo do tempo, i.e., o principal será mais o valor do que a quantidade. Em termos de valor, a evolução das vendas nos anos mais recentes, começando no último semestre de 2020, em que as vendas tinham chegado aos 198 mil euros, em 2021 atingiram aproximadamente 650 mil euros, e em 2022, um milhão e cem mil euros de vendas, o que representou um crescimento de cerca de 50% em relação ao previsto.

   Actualmente, o volume total de vinhos que Van Zellers & Co. destina à exportação varia entre os 50 e 60% e exporta para, aproximadamente, vinte mercados internacionais diferentes, com um destaque especial para os EUA, Alemanha, Itália, França, Canadá, mas também Irlanda e Macau.

 


4. As reflexões sobre o futuro.

O futuro da região. O Vinho do Porto. Os vinhos DOC Douro.

    O Douro vive um momento histórico complexo, difícil e cheio de incertezas que levou ao acompanhamento de uma estratégia para o futuro da região, com a missiva “O Douro merece melhor” (odouromerecemelhor), um documento (proposto em Julho de 2023) promovido por mais de duas dezenas de figuras ligas ao sector do vinho na região do Douro, em que se identificam os principais problemas, dos desiquilibrios à descida no volume de vendas de vinho do Porto,  ao preço das uvas e sustentabilidade sócio económica dos viticultores e também de empresas, que são as consequências negativas do quadro regulamentar em vigor que não é alterado há quase um século e que é indispensável reformar face às mudanças das últimas décadas. Pretende assinalar o início de um caminho de debate e discussão, de respostas abrangentes e tem principalmente como finalidade passar a actual fase de inércia na estrutura geral da Região Demarcada do Douro.

O Vinho do Porto. Na avaliação de Cristiano van Zeller, o sector do vinho do Porto está actualmente num período difícil, de reestruturação, reafirmação e de consolidação de estilos, de qualidade e de estabilização de mercados. No entanto, existe um importante alargamento de produtores e novas marcas de vinho do Porto a aceder ao mercado que, ao contrário de ser um indício de decadência, é um sintoma da sua capacidade regenerativa. Vamos certamente continuar a assistir a um decréscimo de quantidades, mas também a uma maior dedicação aos vinhos de categorias superiores, de qualidade crescente e de maior valor acrescentado, que é o caminho que todos desejam, que o mesmo é dizer, conseguir a justa remuneração para produtores de vinho do Porto e produtores de uvas para vinho do Porto.

   Defrontamo-nos com um mercado dinâmico em plena evolução e o objectivo será trazer o vinho do Porto para essa modernidade aproveitando a revolução ocorrida com os vinhos D.O.C Douro. Na realidade, o vinho do Porto não acompanhou este movimento e é fundamental concentrar agora, o essencial do que se alcançou com sucesso nos últimos trinta anos, atribuindo maior importância comunicacional e uma posição de destaque, equivalente aos vinhos D.O.C. Douro, e com isso fortalecer a região como um todo. Na realidade, quando consideramos o vinho do Porto, a sua longa história e características próprias, o tempo para criar, envelhecer e vender um vinho do Porto é muito diferente, é mais difícil inovar e as mudanças demoram muito mais tempo.

    Contudo, apesar das dificuldades, existe uma geração interessada no vinho do Porto, mas poucas pessoas dedicadas ao negócio, actualmente pouco mais de trinta empresas de vinho do Porto, o que é escasso se tivermos em conta a importância do vinho do Porto na dimensão total dos vinhos portugueses no mundo. Existe igualmente novidade e as inovações têm acontecido, sobretudo de marcas, operadores, diversidade e na forma de comunicar, na linguagem e no design das empresas.

    É uma responsabilidade conjunta, de experimentação e muita imaginação para criar interesse sobre estes vinhos de uma forma mais tradicional e perceber como manter e defender a sua importância. Provavelmente haverá muitas soluções de acordo com os vários mercados e as várias gerações.

    A Van Zellers & Co., na sua actividade tem esse compromisso de recriar, com uma estratégia diferente e com o objectivo de voltar a despertar a atenção para o que o vinho do Porto representa, para a sua qualidade e para todo o potencial que tem para oferecer ao mundo dos vinhos, evidenciando a sua contemporaneidade apesar da sua antiguidade. As edições de vinhos do Porto mais raros têm também o efeito de despertar o interesse para as outras categorias e estilos e valorizar a região do Douro como um todo.

    O grande estímulo é recuperar o vinho do Porto na sua tradição, como um vinho com um valor histórico e cultural excepcional, e na sua modernidade, porque o vinho do Porto é um vinho actual que tem um espaço e um lugar não só no passado, mas no presente e no futuro e esse é o grande desafio que este vinho tem hoje pela frente.

Há um público para o vinho do Porto clássico e um público para o vinho do Porto mais inovador. E há todos os tipos de vinho do Porto, para todos os tipos de imaginação e gostos”. Cristiano van Zeller.

 

    É, todavia, um percurso que leva muito tempo e que pressupõe muito conhecimento e formação, com uma aposta na promoção do vinho do Porto, explicando-o apropriadamente, em que a comunicação assume um papel muito importante, mas é um trabalho crucial e também, muitas vezes, um acto desprendido e generoso, para que uma geração mais nova volte a acreditar no vinho do Porto.

    Do mesmo modo, é igualmente relevante considerar que os vinhos D.O.C. Douro constituem uma importante sinergia para o vinho do Porto de tal maneira que o Douro, actualmente, não pode ser compreendido sem estes dois estilos de vinho que constituem a essência fundamental da região. O empenho na evolução da região deveria ser criar valor, maior procura para toda a produção e posteriormente, maior procura do que oferta. Este esforço deveria ser mais eficaz, sem dispersar esforços e meios, muito concentrado nos mercados que têm dimensão e são emissores e líderes de opinião, que são bem conhecidos e seguidos no mundo dos vinhos e têm capacidade de compra.

Os vinhos DOC Douro. A denominação de origem, criada em 1986 é ainda recente. Há dez anos atrás, os produtores D.O.C. Douro registados no IVDP eram metade do que são actualmente, o que é uma indicação da vitalidade do sector, tal como a evolução da quantidade e das vendas dos vinhos tranquilos da região. Existe uma grande quantidade de vinhos diferentes de diversas castas usadas actualmente, assim como se replantam castas antigas e se recuperam vinhas velhas, depois do grande equívoco dos últimos anos que foi a atenção excessiva apenas em cinco castas, esquecendo que a diversidade é uma das principais riquezas da região.

    O Douro é uma região extraordinariamente diversa e complexa e que tem seguramente um grande futuro pela frente, com expectativas de crescimento. Aos pioneiros nos anos 90, seguiu-se uma nova geração de enólogos que criaram um novo Douro, uma região admirável de diversidade, novidade, imaginação e de qualidade. Depois desta fase, assegurada e reconhecida uma consistência de qualidade, o grande foco agora será a valorização dos vinhos e para isso será necessário um trabalho conjunto de comunicação mais intenso, como o exemplo do que são os Douro Boys. O caminho é alcançar e reforçar a dimensão qualitativa sobretudo no número de produtores de grande qualidade existentes, e reforçar o valor acrescentado. Esta constituição de qualidade, no entanto, depende de um factor decisivo que é, ter vinhas e uvas próprias, o mesmo é dizer que, não se pode estar dependente de uvas de terceiros, porque sem esse controlo não é possivel assegurar a necessária consistência de qualidade para fazer grandes vinhos D.O.C. Douro.

    O desafio é que os grandes vinhos do Douro (e do país em geral), sobretudo aqueles com volumes mais pequenos que ainda não têm uma valorização a nível internacional que traduza aquilo que representam (como por exemplo, os grandes vinhos do Douro, que têm preços de prateleira entre 10 a 50% inferiores aos vinhos do Douro espanhol) e são estes vinhos que importa considerar para a imagem da região. Mas só o tempo vai dar a garantia de que a consistência de qualidade seja reconhecida e merecedora de valorização e isso é um trabalho para muitos anos, décadas. O Douro não pode ter marcas massificadas e a realidade é que actualmente a região produz mais do que aquilo que consegue comercializar.

   A viticultura de  montanha deve produzir vinhos com a qualidade diferenciadora que a região tem, deve ser capaz de transmitir essa qualidade e conseguir ser reconhecida por isso, para depois se seguir a necessária valorização.

Sobre as alterações climáticas. Em resumo e sem especificar, presentemente existem vários indicadores-padrão: a tendência progressiva para as vindimas começarem agora mais cedo do que no passado. Generalizando, o clima está mais imprevisível, existe uma alteração nas chuvas que se concentra mais em algumas épocas do ano e não ocorre ao longo de todo o ano, o que obriga a uma melhor gestão para tirar o melhor proveito da água nos período em que ocorre precipitação. No que respeita às temperaturas, tem havido anos muito quentes, os úlitmos sobtetudo, no entanto, também no passado estes períodos de intenso calor aconteciam e no clima a incerteza sempre existiu e as plantas respondem de maneiras diferentes às mudanças do clima em geral e por isso precisamos de mais tempo para conclusões decisivas. Os registos médios de temperatura estão um pouco mais altos, a média da precipitação é aproximadamente a mesma, no entanto, concentra-se mais em alguns momentos e não é tão distribuída ao longo do ano. 

   A gestão da actividade da Van Zellers & Co. é planeada de acordo com a estas condições e a sua evolução futura, por exemplo, para além de vinhas a altitudes mais baixas, com vinhas a maior altitude e com variedades muito diversas e das castas certas para fazer face ao clima mais seco, uma viticultura mais sustentável  e vindimas iniciadas mais cedo. 

A adega em São João da Pesqueira.

    Os dois armazéns e adega da Van Zellers & Co. estão localizados em São João da Pesqueira. Constituem, um conjunto com uma área total de cerca de 900 m². A área de vinificação dos vinhos do Porto e Douro DOC, recepção e selecção das uvas e a vinificação nos lagares de granito (o armazém 4), num segundo espaço, o armazenamento das barricas e tonéis de madeira e as cubas de diferentes capacidades onde estagiam os vinhos do Porto da casa e a colecção de vinhos do Porto velhos e muito velhos. Incluí também a área de engarrafamento e sala de provas.

    No armazém 9 encontra-se um espaço de armazenamento e envelhecimento de vinhos Douro DOC e vinhos do Porto e armazenamento e envelhecimento em garrafa e a área de rotulagem, embalagem e preparação para transporte.

   Todas as áreas reservadas ao armazenamento e estágio de vinhos são climatizadas. 

Onde?:

www.vanzellersandco.com

Parque Industrial do Lameirão, n.º 9

5130-310 São João da Pesqueira

(as referências geográficas: 41°08'53.9"N 7°25'29.0"O)

 

Texto e fotografias: © Hugo Sousa Machado

 

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