quarta-feira, 22 de maio de 2019

Churchill's e a Quinta da Gricha,

o berço dos vinhos da Churchill's

Resumo: 
  • O início: 1981, o ano de fundação da Churchill's
  • A Churchill's, antes da Quinta da Gricha
  • A Quinta da Gricha, o centro de actividade da Churchill's no país do vinho do Porto
  • A Quinta e a importância da localização, o conhecimento do lugar
  • As Vinhas
  • Caracterização da Vinha
  • A Vinificação e os Vinhos
  • A Identidade e o estilo dos vinhos da Churchill's
  • Vinhos do Porto
  • Vinhos DOC Douro
  • Os Porto Vintage "Churchill's"

O início: 1981, o ano de fundação da Churchill's
    A história da Churchill's é anterior à aquisição da Quinta da Gricha e começou em 1980 quando John Graham deixa o cargo de direcção que ocupava na conhecida firma de vinho do Porto "Cockburn's", com a intenção de fundar uma companhia independente de vinho do Porto.

    John Graham nasceu no Porto em 1952, viveu alguns anos em Inglaterra e voltou para Portugal em 1973, para trabalhar na "Cockburn's", de 1973 a 1980 (também com funções de consultor na casa "Taylor's"), onde fez toda a sua aprendizagem profissional e onde era director em 1980.

    A Churchill's foi fundada em 1981 pelos irmãos Anthony, William e John Graham. Surge então com a designação "Churchill Graham, Lda.", à época a primeira companhia produtora britânica independente de vinho generoso, a estabelecer-se em 50 anos, no último quartel do século XX, cumprindo os necessários requisitos regulamentares que obrigavam a empresa a possuír um armazém no entreposto de Vila Nova de Gaia e um stock de 150.000 litros de vinho do Porto (cerca de 270 pipas de 550 litros).

   A própria marca "Churchill's" tem também a sua própria história. A família "Graham" foi, no passado, proprietária da conhecida Quinta dos Malvedos, no Douro, e da famosa marca de vinho do Porto "Graham's". No início dos anos 60 do século XX, a Quinta dos Malvedos foi vendida à família Symington. O antigo negócio familiar de vinho do Porto e a marca com a designação comercial "Graham's", a companhia de vinhos do Porto com origem no seu nome de família, foram também vendidos, mais tarde, em 1970, à mesma família Symington e integra actualmente o portfolio das marcas desta empresa. Recordamos que, membros da família Symington estiveram envolvidos no negócio da produção e comercialização de vinho do Porto através da casa Graham's. Assim, chegamos à actual nomenclatura "Churchill's", que é na realidade o nome de família da mulher de John Graham, Caroline Churchill. Na impossibilidade de utilização comercial da designação "Graham", a firma combina os dois nomes "Churchill Graham".

   Este importante passado de envolvimento no negócio do vinho do Porto não é despiciendo, assegurou também a credibilidade neste meio muito particular, que não é garantida apenas pela qualidade dos vinhos que se produzem. John Graham quis manter a longa tradição familiar e afirmar-se na produção exclusiva de vinhos do Porto de qualidade, criando simultaneamente um produto com a sua marca e com o estilo próprio que pretendia. Depois, num segundo momento da vida da empresa, com a aquisição de vinhas prórpias com a Quinta da Gricha, forma criadas as condições para a produção de vinhos de mesa DOC Douro.

    Em apenas pouco mais de 3 décadas, a companhia criou uma reputação no mercado, pela produção de vinhos do Porto de grande e consistente qualidade.

A Churchill's antes da Quinta da Gricha

    Antes de possuír vinhas próprias, John Graham tinha chegado a um acordo com Jorge Borges de Sousa (o avô de Jorge Serôdio Borges, Wine & Soul), que era seu conhecido de muitos anos e à época fornecedor da casa "Cockburn's". A família Borges de Sousa, é uma família de proprietários e produtores do Douro com várias propriedades extraordinárias e com uvas de grande qualidade, como a Quinta da Água Alta (na margem direita do Douro, em Covas do Douro, Sabrosa), a Quinta do Fojo e a Quinta da Manuela (no vale do Pinhão, em Vale de Mendiz, Alijó), assim como possuia um grande stock de vinhos do Porto armazenados. Através daquele acordo, em cada vindima, John Graham poderia fazer a primeira selecção das melhores uvas e vinhos das diversas vinhas das diferentes propriedades de Borges de Sousa.
    E esta foi a base dos vinhos produzidos pela Churchill's durante cerca de 20 anos e que ajudou a empresa a alcançar reconhecimento pela qualidade dos seus vinhos do Porto.

    Contudo, em 1999, a morte de Borges de Sousa encerrou um ciclo, uma vez que os seus netos tinham a intenção de iniciar um projecto com produção própria, que seria incompatível com o acordo de fornecimento mantido até então com a Churchill's, que assim, deixou de contar com esta importante fonte para a produção dos seus vinhos, uma realidade que acabou por impôr a necessidade da difícil tarefa da procura de propriedades na região para aquisição de vinhas próprias.

A Quinta da Gricha
o centro de actividade da Churchill's no país do vinho do Porto


    [Gricha s.f.: "fenda em rocha ou fraga, principalmente se dela sai água" (in Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo) - "nascente de água que sai da fenda de fraga ou rochedo", "a água fria da fonte da gricha..." (in Dicionário de Morais)]

A gricha

    Um apontamento histórico

    São escassos os registos disponíveis com referências históricas acerca da Quinta da Gricha. Trata-se, no entanto, de uma quinta que já produz vinho há muitos anos, pelo menos desde o segundo quartel do século XIX. As datas gravadas no edifício do antigo cardenho(1), 1820, e a data de construção dos antigos lagares de granito, 1852, assim o indicam.

    A Quinta da Gricha produz vinhos do Porto, pelo menos, desde 1840, e com marca e rótulo próprio desde 1999. Não possuí a espessura história de muitas outras quintas do Douro mas, no entanto, é uma quinta do século XIX com a sua história particular, numa fase da história de rápida expansão da viticultura duriense, quando muitas quintas surgiram no Douro para responder à crescente procura de vinho do Porto nos mercados externos, que tinha começado algum tempo antes, em meados do século XVIII.

Alguns registos com referências a "Gricha" e "Quinta da Gricha":

    A demarcação da zona de Roriz, efectuada a 10 de Novembro de 1758, determina que: "Principia a demarcação de vinho para 15$000 réis no rio Douro, onde nele entra o regato que vem da Gricha..." (in Demarcações Pombalinas do Douro Vinhateiro, de Álvaro Baltazar Moreira da Fonseca).

   Outras referências históricas do livro "Roriz, história de uma Quinta no Coração do Douro", de Gaspar Martins Pereira: "Em Fevereiro tirava-se o vinho a limpo, trasfegando-se dos tonéis para as pipas em que deveria ser feita a carregação. Em 1899, deixou de se fazer a trasfega a «caneco», utilizando-se nesse ano a bomba da Quinta da Gricha. Provavelmente para experimentar o novo processo.".

   Tratando da Quinta de Roriz, em 1907 chegou a ser equacionada a compra de uma das quintas próximas de Roriz: "lembrou-se a conveniência de se comprar a Quinta da Gricha.", mas as negociações não foram bem sucedidas.

    A 1 de Abril de 1909, a propósito do registo (em nome de Cristiano Van Zeller) dos direitos de descoberta de duas minas de estanho, "uma na Quinta da Gricha, pertencente (nesse ano) a José Gomes de Carvalho, outra no sítio das fragas de Roriz...".

    Em 1978, "o proprietário da Quinta da Gricha, José Pessanha Seixas, escreveu a Rolando Van Zeller, para conseguir o abastecimento de electricidade pelo posto transformador instalado em Roriz. Seixas conseguiu os seus objectivos. No entanto, a partir de 1989, começou a ter severas dificuldades financeiras, deixando de liquidar os consumos de electricidade, tendo acumulado uma elevada dívida à Quinta de Roriz que, depois de muitos avisos, obrigou ao corte do abastecimento de electricidade à Gricha em 1995.".

    "Pela quebrada do nascente...cortados pelo caminho que a Ervedosa conduz e passa pela Quinta da Gricha debruçada no alto..." (in "o Douro: Principais Quintas, Navegação, Culturas, Paisagens e Costumes" de Manuel Monteiro).

    Ainda, a descrição do livro "Quintas do Douro", de J. Alcino Monteiro (1960):
    "Gricha: freguesia de Ervedosa do Douro, concelho de São João da Pesqueira. Proprietário (em 1960): Sr. João Baptista de Morais Frias, residente em Soutelo do Douro. Quinta bastante importante pela sua situação. Está situada na margem direita do rio Torto, na altitude de 140/300m e em terreno bastante cascalhento.Tem um povoamento de cerca de 30 milheiros de vinha, bastantes oliveiras e árvores de fruta, principalmente laranja. A sua produção em vinho de finíssima qualidade é bastante elevada, produz também azeite, em quantidade apreciável.
    Dispõem de boas instalações, muito bem apetrechadas e uma boa casa de habitação.".

    Em 1999, a Quinta da Gricha foi adquirida pela Churchill's, uma propriedade com uma área total de 50 hectares.

A Quinta e a importância da localização, o conhecimento do lugar

    
    A Quinta emblemática da Churchill's, que está actualmente na origem dos seu vinhos do Porto e DOC Douro, localiza-se na sub-região do Cima Corgo, na margem sul do rio Douro, entre o Pinhão e São João da Pesqueira, na freguesia de Ervedosa do Douro (Ervedosa do Douro é a maior produtora de vinho generoso de toda a região demarcada do Douro) e no concelho de São João da Pesqueira, é vizinha da histórica Quinta de Roriz, está situada numa das melhores áreas de produção de vinho do Porto.

    Como referimos antes, até 1999, as uvas para os vinhos do Porto da Churchill's tinham origem em propriedades e vinhas localizadas na margem norte do rio Douro, o mesmo é dizer, com uma exposição predominante a sul, quem originavam vinhos com um perfil mais terroso e quente e com um estilo mais concentrado. As vinhas das propriedades do vale do rio Pinhão tinham característica semelhantes.
    John Graham era da opinião que se deveria procurar um local mais fresco, que contribuísse com as componentes de frescura, acidez natural e pureza de fruta, elementos essênciais para o perfil dos vinhos que queria produzir.

    Próxima da famosa Quinta da Roriz, a Quinta da Gricha é um terroir de excelentes vinhedos, de reconhecida qualidade e classificados com a classe "A"(2), com uma exposição suave e predominantemente a norte, o que foi um factor decisivo para a sua escolha. As suas vinhas beneficiam de mais horas de sombra, de menos horas de luz solar directa, sobretudo nos finais das quentes tardes de Verão e uma exposição ao vento que naturalmente regula a maior humidade, conseguindo-se a frescura que é indispensável (forçosamente as uvas e os vinhos aqui produzidos vão expressar esta frescura) e boas maturações, mais longas e equilibradas. Para além de tudo, veio permitir o controlo de todo o processo de produção, da viticultura, à pisa nos lagares e à vinificação.

    No Douro, cada quinta, cada propriedade e cada vinha, tem as suas características próprias, pelas condições especificas e diferentes processos de viticultura, vinificação e enologia. É também assim com a Quinta da Gricha, onde nascem os vinhos da Churchill's e foi com a aquisição desta propriedade que a produção dos vinhos DOC Douro se iniciou e impulsionou.

    À data de compra da Quinta da Gricha, foi também adquirida uma outra propriedade de menor dimensão, a Quinta do Rio, no não muito distante vale do rio Torto, um afluente do rio Douro, na sua margem sul e também na sub-região do Cima Corgo, uma propriedade com 12 hectares de vinha, também com a classificação "A", com maior exposição solar e que produzia um estilo de vinho do Porto mais quente, frutado, floral e concentrado, que se poderia considerar nos antípodas dos vinhos da Gricha, mas aqui a intenção consciente era alargar a possibilidade de escolha e ter uma garantia para obter os melhores resultados possíveis em cada vindima. No entanto, as sucessivas produções acabaram por não revelar a consistência das características necessárias para o perfil pretendido para os vinhos da casa e a possibilidade de aquisição de mais parcelas de terreno contíguas à Quinta da Gricha acabou por determinar a decisão de venda da Quinta do Rio.
    Ainda, durante um curto período, de 1999 a 2002, foi arrendada a Quinta da Perdiz, também no vale do rio Torto, que acabou por ter uma influência muito reduzida nos vinhos da casa.



    1999 foi o primeiro ano em que a Churchill's utilizou uvas da Quinta da Gricha na produção de vinho do Porto vintage.

    Na tradição histórica das quintas do Douro, como centros e unidades de exploração e produção vitícola integrada, orientada para a vitivinicultura, é possível reconhecer na arquitectura tradicional da quinta os edifícios e as suas funções e a divisão original das áreas e dos espaços.

    A maior construção, a antiga casa da quinta, a casa principal destinada à habitação do proprietário e todas as restantes estruturas de apoio à actividade da quinta, o edifício independente da casa dos lagares com os antigos lagares de granito com colunas esculpidas, um elemento decorativo pouco comum no Douro, e com uma capacidade entre 6000 a 7000kg (existem também lagaretas de granito, mais pequenas com uma capacidade de cerca de 2000kg), depois a adega e a oficina vinária, a casa do caseiro e os cardenhos(1). Alguns destes espaços estão actualmente adaptados a novas necessidades e utilizações, como uma nova sala de provas, o laboratório, dormitórios e escritório. Depois, os espaços exteriores que constituem o património natural da quinta, para além dos vinhedos, o jardim, a horta, o pomar, o olival e o amendoal.

Vista a partir da Quinta da Gricha, com a Quinta de Roriz ao fundo

   Recentemente, em 2016, concluiu-se o projecto de requalificação de infraestruturas, com a construção de uma adega, caves de maturação, laboratório e do armazém, assim como a recuperação, conservação e preparação da casa principal da quinta, que se encontrava parcialmente em ruínas, para receber hóspedes, o que se designa hoje por "Gricha Vineyard Residence". Nesta recuperação e restauro, houve a preocupação em respeitar a essência dos elementos da arquitectura tradicional da antiga casa, manteve-se a traça tradicional típica e no interior houve o cuidado em manter a estrutura, os espaços e, sempre que possível, com a utilização de materiais idênticos, como são um bom exemplo os caixotões e o travejamento de madeira dos tectos.

    A Quinta como conjunto de recursos turísticos foi também aproveitada e valorizada, acompanhando a actual e crescente tendência de articulação da vitivinicultura, das actividades na quinta, do enoturisto e do turismo cultural.

As vinhas

A vinha em patamares
    Uma quinta com cerca de 20 hectares de uma vinha já existente que corresponde a cerca de metade da actual área total de vinhedo, que é constituída por uma mistura de vinhas muito velhas e outras áreas de vinha com uma idade média de aproximadamente 35 anos. Desde então, iniciou-se um criterioso trabalho de replantação e reconversão da vinha e esta área foi aumentada para o dobro da área inicial.
    Em 2009, a área inicial da vinha já tinha sido alargada para cerca de 37ha. Actualmente, a Quinta da Gricha possuí uma área total de 50ha, 40 dos quais plantados com vinha.

Caracterização da Vinha 

Da área total actual de vinha com 40 hectares, a uma altitude entre os 150 e os 400 metros, aproximadamente 20ha estão plantados com vinhas muito velhas, com cerca de 70 anos de idade e com vinhas com 35 anos, estas últimas plantadas no âmbito do programa PDRITM(3). Os restantes 20ha correspondem a vinhas mais recentes plantadas no anos 2007, 2008 e 2009, com as castas Touriga Nacional, Touriga Francesa, Sousão  e depois Rabigato e Viosinho na parcela mais alta.

O tipo de terreno: são terrenos essencialmente xistosos, com afloramentos graníticos. Parte das vinhas estão implantadas em terrenos de antigas minas de estanho e os solos têm uma componente mineral muito forte, que acaba também por se reflectir nos vinhos.

Os sistemas de armação do terreno: existem vários tipos de socalcos, a vinha tradicional em socalcos pós filoxéricos e a vinha em patamares de 1 e 2 bardos. A vinha velha é em estilo anfiteatro.

O encepamento: existe uma variedade de castas em que se encontram predominantemente Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinta Roriz, Tinta Francisca e Tinto Cão e um blend constituído por outras castas diversas  e misturadas e que está na origem dos vinhos do Porto da casa.
As vinhas do programa PDRITM com mais de 35 anos são constituídas por Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Touriga Francesa.

O que tem de especial o "Talhão 8" da vinha da Quinta da Gricha?

    "O talhão 8 é constituído por Touriga Nacional e está na origem de um vinho de quantidades muito reduzidas feito a partir de uma vinha que eu acho especial. Não é uma vinha velha, estamos a falar de uma vinha com cerca de 19 anos que, ano após ano, produz uma Touriga Nacional de qualidade e consistência assinaláveis. Sem perder a exuberância característica desta casta, mostra também uma elegância e uma estrutura muito bem definidas. Por essa razão, entendemos que é um vinho que exemplifica bem o pedigree de uma quinta como a Gricha." (Ricardo Pinto Nunes, Director de Produção e Enólogo da Churchill's).

    Ainda de acordo com Ricardo Pinto Nunes, este é um terroir por excelência para as castas Touriga Nacional e Touriga Francesa, salvaguardando que a essência e a força do Douro assenta no potencial dos vinhos produzidos a partir de vinhas muito velhas, dos chamados field blends.
    Existe uma predominância intencional da Touriga Nacional que é uma casta com uma expressão excepcional nestes terrenos, tanto para o vinho do Porto como para os vinhos de mesa, amadurece com um nível alcoólico baixo, cerca de 12% a 13%, tem tendência para uma baixa produção, com cachos compactos e bagos pequenos, é muito aromática e tem uma boa estrutura tânica. Dá origem a vinhos de elevada pureza e foco e com uma excelente acidez natural.

    No futuro o objectivo é alargar a área de vinha em mais cerca de 5ha, onde vão ser plantadas 10 a 15 castas diferentes, a pensar num futuro field blend.

    Os vinhos que não incluem o nome da quinta no rótulo são produzidos a partir de uvas adquiridas a lavradores (que são cerca de 15), com os quais existe uma relação bastante próxima e de muitos anos. Alguns são fornecedores da Churchill's desde 1999,o ano em que a Quinta da Gricha foi adquirida, o que permite conhecer muito bem todo o potencial das vinhas e das uvas, como garantia de consistência do perfil dos vinhos.



A Vinificação e os vinhos

    Como referimos, este é um terroir especial, que dá origem a vinhos com características especificas e reconhecíveis que lhe conferem a identidade, a frescura e acidez natural que se consegue conservar e manter mesmo em anos muito quentes, o que é determinante para a elegância, equilíbrio e capacidade evolutiva dos vinhos.

    Os vinhos brancos são produzidos a partir de uvas de vinhas situadas em terrenos a maior altitude e em solos graníticos. Existe uma vinha de castas brancas situada no alto da quinta, que é usada para os vinhos brancos de mesa, contudo, são também usadas uvas de outras zonas mais altas do Douro como Murça, pelos seus solos mais graníticos e porque asseguram frescura e uma maturação mais tardia, que são elementos procurados pela casa. 
    A acidez é uma característica transversal a todos os vinhos da Churchill's, com uma componente mineral sempre presente. Nos vinhos tintos são características as sugestões de frutos negros, mirtilos e amoras maduras.

    Em 2007, foi pela primeira vez introduzido no lote um vinho do Douro Superior, com um estilo mais musculado e rústico, sem a finesse que caracteriza o Cima Corgo. O "Grande Reserva" é um vinho que combina 3 ou 4 vinhas muito velhas situadas no Cima Corgo e no Douro Superior, que segundo RPN: "é um vinho com a força típica de um blend de vinhas velhas, com estrutura e complexidade, fechado e tenso, mas com uma vinosidade e potencial de envelhecimento muito bons.".

    Os vinhos do Porto são ainda, integralmente produzidos, pelo método tradicional, nos antigos e tradicionais lagares de granito da quinta da Gricha, com mais de 150 anos, que são também parte do orgulho da casa.
    Tradicionalmente os vinhos do Porto eram produzidos com pisa a pé em lagares de granito ou xisto, método que requer muita mão-de-obra disponível. Tipicamente as companhias de vinho do Porto, recrutavam os trabalhadores para a vindima numa mesma aldeia, que ficavam juntos no Douro, vindimavam durante o dia e trabalhavam nos lagares à noite, o que é uma prática social antiga.

    A Churchill's faz questão de manter a ancestral tradição da pisa a pé para todos os seus vinhos do Porto, enquanto fôr possível, porque se acredita que, apesar de ser um método dispendioso é ainda o processo mais eficiente e o que tem melhores resultados e que confere aos vinhos do Porto toda a côr e os necessários taninos suaves. Há uma importância dada ao pormenor, uma atenção e cuidado com as pequenas coisas, que é também o que o consumidor mais informado e especializado procura.
   Outro factor diferenciador é o facto dos vinhos do Porto fermentarem naturalmente sem a adição de leveduras. "Esse factor, aliado ao facto de deixarmos propositadamente a fermentação correr um pouco mais longe, dá origem a vinhos mais secos, estruturados e sem a necessidade de se adicionar tanta aguardente vínica, ou seja, com mais álcool "natural", i.e., álcool proveniente do processo fermentativo.". 



    No processo de produção de vinho do Porto que a Churchill's considera ser o mais indicado para o Porto vintage, em cada vindima procede-se a uma selecção muito criteriosa dos vinhos em prova cega, o que vai resultar numa distinção de 3 categorias de vinhos; Vintage, LBV e Reserve. Da classe "Vintage", saem os vinhos para os Vintage, Single Quinta Vintage, Crusted e reservas para os Tawny de 20 e 30 anos. Se se pretendem vinhos com potencial para envelhecer em garrafa como um vintage, é preciso esse mesmo potencial para os vinhos poderem envelhecer convenientemente em casco, com a capacidade para retêr fruta, côr e frescura. Da classe "LBV" saem também as reserva para o Tawny 10 anos. Finalmente, uma vez que só são produzidas categorias especiais, a classe "Reserve" que assegura o lote de Reserve Port. 

A identidade e o estilo dos vinhos "Churchill's"

    Assumidamente uma empresa de nicho, que é hoje uma referência na vocação especializada para a produção de vinhos do Porto e DOC Douro de grande qualidade. São vinhos feitos por pessoas que, na realidade, são artesãos e que se interessam realmente pelos vinhos que produzem. "A pequena escala da empresa permite produzir vinhos artesanais usando métodos tradicionais que muitas casas não conseguem aplicar devido à sua natureza demorada.".
    A aposta nas categorias especiais de vinho do Porto em que mesmo os ruby's são topo de gama. A selecção das uvas e todo o processo de vinificação é o mesmo, independentemente de se tratar de um Porto reserva, LBV, Crusted ou Vintage.

     Os vinhos têm um estilo mais fresco e seco, mesmo os tawnies com 10 e 20 anos de idade, passam por um período inicial de envelhecimento em grandes balseiros e só numa segunda fase passam para as pipas de 600 a 650 litros de capacidade, o que ajuda a manter a frescura da fruta, que é a principal característica dos tawnies da Churchill's. Nestes vinhos a expressão conferida pela madeira não surge tão vincada, como acontece com a generalidade dos tawnies de outros produtores.
    O carácter dos vinhos da Churchill's pode ser definido com um estilo característicamente estruturado e rico, complexo, com taninos suaves e um bom equilíbrio entre frescura, mineralidade e acidez.


"Gosto de fazer vinhos naturais, acima de tudo procuro o equilíbrio"

"My Ports are made with as much natural fermentation, and with as little fortification brandy as possible. I like to make wines in the most natural way. Above all I look for balance. I believe I brought this balance to Churchill's Ports. There is a consensus around the characteristics that define our house style which are easily identified.". John Graham

    A Churchill's continua a ser, essencialmente, uma empresa de vinho do Porto, no entanto, actualmente a sua produção divide-se aproximadamente em 50% vinho do Porto e 50% vinho DOC Douro.
    A Churchill's exporta cerca de 80% do total da sua produção de vinho do Porto e DOC Douro. O mercado britânico, os EUA, a Suécia, o Brasil, entre outros, são os seus principais mercados internacionais de exportação. O mercado nacional representa aproximadamente 20% do total de vendas.



O portfolio de vinhos actual, fortificados e não fortificados 

Os Vinhos do Porto

Churchill's dry white Port
Churchill's 10, 20, 30 e 40 years old Tawny Port
Churchil's Reserve Port
Churchill's LBV Port
Churchill's Crusted Port
Churchill's Quinta da Gricha Vintage Port (single quinta vintage)
Churchill's Vintage Port

Os Vinhos DOC Douro

Meio Queijo, branco e tinto
Churchill's Estates Douro, rosé, branco e tinto
Churchill's Estates Touriga Nacional
Churchill's Estates Grande Reserva tinto
Quinta da Gricha tinto
e os mais recentes:
Gricha tinto (um vinho feito a partir da mesma vinha velha da quinta, mas num estilo mais "borgonha", num estilo mais leve, menos extraído, mas sem perder a finesse, a qualidade e a estrutura dos vinhos feitos da vinha velha da Gricha).
Quinta da Gricha Talhão 8 (vinificado e fermentado em lagares robóticos na adega de vinhos de mesa, faz a fermentação maloláctica e envelhecimento em barricas de 500 litros).

Os Porto Vintage da "Churchill's"
A lista dos vinhos do Porto Vintage produzidos pela Churchill's, de 1999 a 2022. 1999 foi o ano do primeiro vintage produzido com uvas da Quinta da Gricha.
 


Onde?
drinkchurchills.com
Quinta da Gricha, Ervedosa do Douro, 5130-108 S. João da Pesqueira
Nas coordenadas geográficas latitude N: 41.18980º e longitude E: -7.47119º
Telf: 00351 254 422 136    email: enoturismo@churchills.pt

Churchill's (sede e centro de visitas em Vila Nova de Gaia)
Rua da Fonte Nova, n.º 5, 4400-156 Vila Nova de Gaia, Portugal
Telf.: 00351 22 370 36 41   email: office@churchills.pt

Visitors centre telf.: 00351 374 41 93 e 00351 22 370 36 41; tlm: 00351 91 310 60 66  email: lodge@churchills.pt

 

As notas: 

(1) Cardenho: a casa ou edifício dormitório destinado aos trabalhadores da quinta e das rogas durante a vindima.
(2) Classe "A": o sistema de classificação qualitativa das vinhas no Douro, em que as vinhas são seleccionadas de acordo com uma escala, da letra "A" à letra "F ", aplicando um método de pontuação que avalia determinados parâmetros com importância determinante no potencial qualitativo das vinhas. São considerados os elementos: a altitude, a produtividade, o tipo de solo, o sistema de condução da vinha, o encepamento, a inclinação do terreno, a exposição, o textura do solo, a idade das vinhas, o abrigo e a densidade da plantação.
Da aplicação de um sistema de pontuação a cada um destes parâmetros resulta uma classificação que corresponde a uma classe, sendo a classe "A" a mais alta. (fonte: IVDP, Instituto dos Vinhos do Douro e Porto).
(3) Programa PDRITM: o projecto de desenvolvimento rural integrado de Trás-os-Montes, foi um programa de financiamento aplicável ao plantio de novas vinhas e reconversão de vinhas já existentes.

O nosso agradecimento a Ricardo Pinto Nunes, pela disponibilidade e esclarecimentos prestados.

Texto e fotografias
©Hugo Sousa Machado


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terça-feira, 23 de abril de 2019

Port library news (.6): the book "250 years of stories" (Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo)

EN/PT
    A book written by José Braga-Amaral, a journalist and writer with much of his bibliography dedicated to the Douro, and prefaced by Bento Amaral, the IVDP (the Douro and Port Wine Institute) Technical Services and Certification Director (in past times the Quinta Nova was owned by a great grandfather of his). The book is a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo October 2014 edition. With texts written in portuguese and english, with a wonderfull design and pagination work, reponsibility of "Omdesign", a portuguese advertising agency, several times internationally distinguished for the originality and excellence of its design.
    It's profusely illustrated, it highlights the design and the great quality of its many photographs that document the book.

Sy.nop.sys
    The book, as it would be predictable, tells us the story of the Douro, the "bad navigation river", the "rabelo" boats odyssey, the origins of the Quinta Nova designation - the chapel erected in honor of Nossa Senhora do Carmo, in one of the most dangerous points of the river navigation in times when Port wine was transported in casks downriver by boat. The characterization of the quinta location, the "site of the story", the agricultue in an isolated and inhospitable region until the end of the XIX century.

    Then the long Quinta Nova history, located on the right bank of the river Douro (in the Cima Corgo Douro sub-region), in Covas do Douro, long before the 250 years referred in the title of the book.
     The origins of the quinta itself date back to 1725, a few years later its inclusion in the first Douro demarcation as a place of premium quality wine production (the «feitoria» or boarding wines), followed by the interesting description of the several Quinta Nova owners over the years to the more recent association in 1992, to the secular Port wine house "J. W. Burmester & Ca.", founded in 1750, which invested in the winery, in the expanssion of the vineyard and in the production of Port and D.O.C. wines. The first Burmester vintage Port with the designation "Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo" was produced in 1992. Some years later, in 1999, the Burmester family made the decision to sell the company (as well as the brand) and Quinta Nova to the Amorim family. 

    We accompany the journey through the Douro and the quinta vineyard heritage: "...the landscape of Douro is a peculiar, if not unique, example of the human relationship with the natural elements...".
    A reference and description of the set of buildings that constitute the quinta, the main owners house and the winery dating from 1764, the chapel, and the connection of the quinta with the surrounding community and neighboring lands, the evolution of the vineyard and the natutral heritage and the property activities, the old orchards, the viticulture and olive growing, the traditional 80 year old vineyards, the more recent vineyards and its characteristics and the "Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo" white and red D.O.C. Douro and Port wines.





Notícias da biblioteca (.6): o livro "250 anos de histórias" (Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo"
    Um livro da autoria de José Braga-Amaral, jornalista e escritor, com boa parte da sua bibliografia dedicada ao Douro, e com prefácio de Bento Amaral, Director dos Serviços Técnicos e Certificação do IVDP, Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (em tempos a Quinta Nova foi propriedade de um bisavô seu). É uma edição da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo de Outubro de 2014. Com textos em português e inglês, com o óptimo design da responsabilidade da "Omdesign", agência de publicidade portuguesa, por diversas e consecutivas vezes distinguida em concursos internacionais, pela originalidade e excelência do seu design.
    O livro é profusamente ilustrado, destaca-se a concepção e a grande qualidade das muitas fotografias que documentam o livro.

Si.nop.se
    O livro começa por contar a história do Douro, do "rio de mau navegar", a odisseia dos barcos rabelos, a origem do nome da quinta - o da capela erigida em honra de Nossa Senhora do Carmo, num dos pontos mais perigosos da antiga navegação do rio Douro. A caracterização da localização, do "sitio da história", a agricultura numa terra isolada e inóspita até finais do século XIX.
    Depois a longa história desta quinta localizada na margem direita do rio Douro (na sub-região do Cima Corgo), em Covas do Douro, muito anterior aos 250 anos referidos no título do livro. As origens em 1725, a inclusão na demarcação Pombalina do Douro como zona de produção de vinhos de primeira qualidade (vinhos de «feiroria» ou de embarque) e a interessante descrição dos diversos proprietários da Quinta Nova ao longo dos anos até à mais recente associação em 1992, à secular casa de vinho do Porto J. W. Burmester & Ca., fundada em 1750, que realizou investimentos na adega e na plantação de vinhas e a produção de vinhos do Porto e DOC Douro. O primeiro Porto Vintage desta casa com a designação Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo foi produzido precisamente em 1992. Depois, em 1999, a família Burmester toma a decisão de vender a empresa (e a marca) e a Quinta Nova à família Amorim.

    Acompanhamos a viagem pelo património do Douro e da quinta: "...a paisagem duriense é um exemplo peculiar, senão único, da relação humana com os elementos naturais..."
    Descreve-se o conjunto dos edifícios, a casa principal, historicamente a casa principal de habitação dos proprietários e a adega da quinta datada de 1764, a capela, e a ligação da quinta com as terras vizinhas e comunidade circundante, a evolução da vinha e a paisagem património da Humanidade, o património natural e a actividade da quinta, os antigos pomares, a viticultura e a olivicultura, a história da vinha, as vinhas tradicionais com mais de 80 anos, o vinhedo actual e os vinhos da quinta, brancos, tintos e o vinho do Porto.



domingo, 24 de março de 2019

Meanwhile in Porto, the exhibition: "Douro [DWR], three soils between heaven and earth" / "Douro [DWR] três solos entre céu e terra"

EN / PT

Skrei "Antrosolo", 2018: a collection of soils from the Douro, decanted in bottles / recolha de solos do Douro decantados em garrafa
    Now in presentation in Porto, in the future City History Museum, the exhibition that recently returned from Bordeaux "La Cité du Vin" that invites visitors to "discover the historical richness and the singularity of the heritage" in the North of Portugal, and presents "an organic and anthropologically attentive insight into the landsacpe of Douro - a gathering of water, rock, scent and civilization".

    The exhibition accompanying texts, welll worth reading:

    "The Douro is the land of Port wine. These sun-drenched shale slopes, stretching form the foothills of Marão and Montemuro to the stony heights of Mazouco and the border valley of Águeda, produce the best wine in the world, the result of a stubborn struggle waged by the people of the Douro, pitting body and soul against the hostile forces of nature. They cleared the forest and the wild beasts from the mountains. They ground the shale to dust and carved out kilomoters and kilometers of terraces to fill with hanging gardens of grape. They endured the fury of a violent river, with deep channels, cascades, and rushing torrents, sweeping away houses and wineries, vineyards and vegetable gardens from its banks in its great floods. In summer, they shivered through the malarial fevers that sprang from the dry riverbed. In winter, they donned their straw hats and stood firmly in their vineyards through the hail and rain. And to create this wine, they left chestnut fields, flax beds, cornfields, vegetable gardens and orchards...".

     Fernando de Sousa e Gaspar Martins Pereira.




    "Douro is the name of a river, but its a name that extends beyond its banks to become the apellation given to an entire region. For approximately 100 kilometers - from Barca d'Alva, at the spanish border, all the way to Barqueiros, near Porto, where it flows out to the ocean - Douro is both a river and a land. Flowing down from Zamora to Barqueiros, the river does not impose upon the space through which it passes.
    Here, the Douro, with its long course (nearly 900kms in length) becomes both the name given to a confluence of water, stones, plants, animals and people, and the cornerstone of that confluence, at both its beginning and its end.

    Air, fire, earth and water achieve a balance here that is propicious to that highly prized plant life whose fermentation produces the exquisite and internationally renowned wine known as Port.

    Many have attempted to reproduce this wine, with its complex manufacturing and aging process, in other lands, both in the country and abroad. Such attempts have met with no success.

    Beyond the fortification process, and the aging in selected oak casks, stored in cellars along the southern banks of the Douro's mouth, the place where the vines grow is a crucial factor: soil, topography, climate. This is terroir made entirely by hand. These terraces did not always exist; the rocky crags had to be broken down, the schist rock of the monolithic cliffs that once rose from the most sunbacked riverbanks taken apart.

    At the opposite end of the spectrum, nearly everywhere in the world, it is the production of natural and biodynamic wines that is now driving the wine experiences of the future. The idea is to give the wines made in a place its distinctive characteristics - the vines, the climate, the soil - applying techniques and containers that do not eclipse its distinctive forms, and instead allow th vines to grow and find their own way.
     This means thinking about wine in a human way, as a living, permeable, changing thing, so that through the wine one can perceive the soil, the climate, the varietals, the year and even the bottle.

    It is a different paradigm, one that emerges from an urgent need to rethink the world we inhabit; these are experiences of an intensified relationship between human beings and the soil.

    This exhibition is thus and aminist (e)vocation of the region, one that conjures up the voices of the people, the songs of the birds, the metallic tonality of the shale, the rushing of the waters and the blowing of the wind.

    First and foremost, it is a performative experience, one that can be seen as a composition; it is an exhibition that spans over time, one that articulates and brings together both ancient and contemporary sounds, testimonials, voices from the beyond and vision from the past projected into the present. In the bird's eye rendering, it constitutes a kind of landscape of sound.

    In turn, the soil, the earth, the raw material aspects have been worked and brought to the table by Skrey architecture studio, located in Porto, and the wine maker and producer Mateus Nicolau de Almeida, who have developed a continuing and fruitful collaboration in the Douro region, in Vila Nova de Foz Côa, based around the creation of places where wine is held sacred. Together, they give us a panorama of this collective quest, this probing of the region's secrets, where, following in the auspicious tradition of the Cistercian monks, a dialogue is held between the knowledge of the past and experimentation.":

    Eglantina Monteiro e Nuno Faria, the exhibition curators.

©hsm


"Douro [DWR] 3 solos entre o céu e a terra"

    Agora apresentada no Porto, no futuro espaço do Museu de História da Cidade, a exposição que regressou recentemente da "La Cité du Vin", em Bordéus, e que convida os visitantes a descobrir "a riqueza histórica e a qualidade do património" existente no Norte de Portugal e apresenta uma "visão orgânica e antropológicamente atenta à paisagem do Douro - num encontro de água, rocha, aromas e civilização.".

     Os textos que acompanham a exposição e que merecem uma leitura:

    "O Douro é a terra do vinho do Porto. Nestas encostas soalheiras de xisto, dos contrafortes do Marão e Montemuro às alturas pedregosas do Mazouco e ao vale fronteiriço do Águeda, produz-se o melhor vinho do mundo, resultado de uma luta teimosa em que o homem do Douro investiu o corpo e a alma contra a natureza hostil. Das serras expulsou a floresta e os animais bravios. Do xisto fez pó e socalcos, quilómetros e quilómetros de vinha em jardins suspensos. Aguentou a fúria de um rio violento, de poços, galeiras e torrentes, a varrer das margens casas e adegas, vinhas e hortas nas cheias grandes. No Verão, tremeu de febres palustres, que subiam do leito seco do rio. No Inverno, vestiu a croça e aguentou as codas e a chuva, pé firme na vinha. Para criar este vinho deixou soutos, linhares e searas, e hortas e pomares...".
  
    Fernando de Sousa e Gaspar Martins Pereira

    "O Douro é nome de rio que transborda para as margens, tornando-se também nome de uma região. São cerca de 100km - entre Barca d'Alva, na fronteira com Espanha, até Barqueiros, quase a desaguar no Porto - em que o Douro é água e terra. A jusante de Zamora e de Barqueiros, o rio não se impõe no espaço que atravessa.
     Do seu longo curso (cerca de 900km) é aqui que o Douro é nome de um encontro de água, pedras, plantas, animais e pessoas, e a chave por trás da qual este encontro pela primeira vez e também a última se dá.

    O ar, o fogo, a terra e a água atingem aqui um ponto de equilíbrio de onde nasce uma forma de vida vegetal irrepetível, cuja fermentação converte no nobre e internacional Vinho do Porto.

    Sendo um vinho que passa por um complexo processo de fabricação e envelhecimento foram muitos os que dentro e fora do país tentaram produzi-lo noutras paragens. Sem sucesso.

    Apesar da aguardentização, do envelhecimento em cascos de madeira seleccionados, estágios nas caves da margem sul da foz do Douro, o lugar onde as vinhas crescem é decisivo: solo, topografia, clima. Um "terroir" feito à mão. Os socalcos não existiam, foi preciso rebentar as fragas, desfazer as pedras xistosas das pedras tumulares que se levantavam nas margens mais expostas ao sol.

    Na polaridade oposta e um pouco por todo o mundo, hoje é a produção dos vinhos naturais e biodinâmicos que comanda as experiências vínicas futurantes. A ideia é fazer com que o vinho seja a marca original de um sítio: vinho, clima, solo, aplicando técnicas e contentores que não escondam as formas originais, e permitam que os vinhos evoluam e encontrem o seu próprio caminho.
    Isto significa pensar o vinho de uma forma humana, como uma coisa viva, permeável, em mutação, de molde a através do vinho se percepcione a terra, o clima, as cepas, o ano e até mesmo a garrafa.

    É um outro paradigma que emerge da urgência de repensarmos o mundo que habitamos, são experiências de intensificação da relação dos homens com a terra.

    Por isso, esta exposição é uma (e)vocação animista da região, que convoca a voz dos homens, o canto das aves, o som metálico do xisto, o correr das águas e o sopro do vento.

    Em primeira instância, é uma experiência performativa que pode ser entendida como uma composição: trata-se de uma exposição que tem uma duração - articula, faz coabitar sons antigos e contemporâneos, depoimentos ouvidos, vozes do além e visões do passado projectadas no presente. É, na sua versão aérea, uma paisagem sonora.

    Em contraponto, a terra, o chão, a matéria é trabalhada e trazida pelo atelier de arquitectura Skrei, sedeado no Porto, e o enólogo e produtor Mateus Nicolau de Almeida, que desenvolvem uma continuada e profícua colaboração na região do Douro, em Vila Nova de Foz Côa, em torno da criação de lugares de culto do vinho. Juntos, oferecem-nos um panorama dessa demanda conjunta, desse inquérito aos segredos da região, na qual, sob a auspiciosa tradição dos monges cistercienses, dialogam conhecimento do passado e experimentação.".

    Eglantina Monteiro e Nuno Faria, os curadores da exposição.



Skrei, "Rocha-mãe", 2018: samples of stones representing the lithologies of Douro demarcated region / amostras de recolhas representativas de litologias da região demarcada do Douro.


©hsm

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terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

4 questions to Alex Bridgeman, the "face" of The b.f.t.

EN/PT

    A focus on fortified wines, the attention they deserve


                                                                           with permission The b.f.t.


Alex Bridgeman
    Just a few weeks away from the next the b.f.t. 9th edition, which will be held as in previous editions, at Church House Conference Centre, in Westminster, London, we publish the interview Alex Bridgeman granted us, currently and since the last b.f.t. edition, the main responsible and the "face" of this event.

    PtoPwine: Personally what is your relationship or feeling about fortified wines and Portuguese fortified wines in particular?
    AB: When I was 21, my grandparents opened a bottle of Taylor's 1963 vintage Port (I was born in 1963). When I said I liked it, my grandfather was very disappointed. He explained he had hoped I would not like vintage Port because then he would be able to keep the other 12 bottles of Taylor's 1963 for himself. He was very sad when he gave me the rest of my 21st birthday present from my grandparents, but very happy over the next few years when he shared one with me from time to time to celebrate birthdays. My last bottle from the case was opened to celebrate my 50th birthday and the memory of my wonderful grandparents. I have always had a love of fortified wines, especially of Port and wines made in a similar way, such as Cape vintage from South Africa, and was deeply honoured a few years ago to be elected as a Cavaleiro da Confraria do Vinho do Porto. I am also a frequent contributor to the website theportforum.com, where there is a database of around 5.000 tasting notes on Port of all types.

    PtoPwine: Why the need of an exclusive fortified wine tasting?
  AB: Fortified wines are - quite wrongly - overlooked by so many people. They are amazing examples of the skill of the winemaker and because they are often made as almost as a hobby, they frequently represent amazing value for money. At a normal wine fair, such as the London Wine Fair, 99% of the wines shown are table wines. Anyone looking for a fortified as to search through the entire show to find perhaps 10-15 examples. At a wine show dedicated to fortified wines people who attend are looking specifically for this style of wine and know that everything on show is in this category. At the same time the producers who are showing their wines, know that the people attending are people buying, selling, serving or writing specifically about fortified wines. I learned so much at the show about styles of fortified wine which I've not drunk often before - chilled sherry from the fridge during the hot summer or white Port and tonic over ice have been delightful drinks this year.

    PtoPwine: How do you see the evolution of The b.f.t. since its first edition? Is there a growing interest in fortified wines?
    AB: The first b.f.t. was organized by Danny Cameron and had 12 exhibitors and aroud 100 visitors. The first show was a great success and generated a lot of interest among buyers and producers and the second year was much bigger. After a few years the show grew to the point where it needed to move to a larger venue and relocated to Church House in Westminster. Interest in fortified wines is growing, but these are definitely not mainstream wines - even though they should be. There are more Sherry bars and tapas bars serving Sherry in London than 10 years ago and Port bars or restaurants specialising in Port are starting to open. I hope that by making it easier for bars and restaurants owners to meet the producers we are doing our small part to help the growth of the consumer's interest in fortified wines.

    PtoPwine: What are the perspectives for The b.f.t. 2019 edition?
    AB: In 2016 the show was organized by Ben Campbell-Johhston. Sadly, he died in late 2016 and the show did not run in 2017. I felt very strongly that fortified wines should continue to have their own show where trade consumers and buyers can learn more about these very special wines and, hopefully, to continue Ben's wonderful legacy. The show is relative small, with around 40 producers showing 200 wines to about 400 visitors. The size is perfect as it allows the show to be relatively intimate and for producers and visitors to spend a good amount of time with each other. We are working hard in 2019 to increase the number of independent wine merchants and on trade operators who visit the show and are looking at the possibility of including a mixologist who can show visitors the versality of these wines in cocktails, but we don't plan to increase the size of the show too far.
                                                                                 with permission The b.f.t.

4 perguntas a Alex Bridgeman, o responsável pelo The b.f.t.


A atenção que os vinhos fortificados merecem

    A menos de 2 meses da próxima edição do The b.f.t., a 9.ª, que este ano se realizará a 16 de Abril, na Church House Conference Centre, Westminster, em Londres, como em anos anteriores, publicamos a entrevista que Alex Bridgeman nos concedeu. Alex Bridgeman é, actualmente e desde a última edição, o responsável e a face de toda a organização deste acontecimento.

    PtoPwine: Pessoalmente qual é a sua relação e opinião sobre os vinhos fortificados em geral e os portugueses em particular?
     AB: Quando eu tinha 21 anos, os meus avós abriram uma garrafa de vintage Taylor's 1963 (nasci em 1963). Quando eu disse que tinha gostado, o meu avô ficou muito desapontado e explicou-me que esperava que eu não gostasse do vinho do Porto para ficar com as restantes 12 garrafas de Taylor's vintage 1963 para si. Ficou muito triste quando me ofereceu o resto do meu presente de 21 anos de aniversário, mas ficou muito feliz nos anos seguintes, quando compartilhava comigo uma garrafa deste vintage, de vez em quando, para celebrar aniversários. A minha última garrafa deste conjunto foi aberta para celebrar o meu aniversário de 50 anos e a memória dos meus maravilhosos avós. Sempre gostei muito de vinhos fortificados, especialmente de vinho do Porto e de vinhos similares, como o Cape vintage, da África do Sul e fiquei profundamente honrado quando, há alguns anos atrás, fui eleito Cavaleiro da Confraria do Vinho do Porto. Também sou um colaborador frequente do site theportforum.com, onde existe um banco de dados com cerca de 5.000 notas de prova de todos os tipos de vinho do Porto.

    PtoPwine: Porquê a necessidade de uma apresentação exlusiva de vinhos fortificados?
    AB: Os vinhos fortificados são - muito injustamente - a maioria das vezes, esquecidos. Mas são vinhos que são exemplos surpreendentes da perícia do produtor e porque são frequentemente produzidos quase como um passatempo, para além de frequentemente terem uma boa relação qualidade preço. No geral das apresentações dedicadas ao vinho, como a London Wine Fair, 99% dos vinhos são vinhos de mesa. Quem procura um determinado vinho fortificado tem de procurar por todo o evento para encontrar talvez 10 ou 15 exemplos. Numa mostra de vinhos dedicada a vinhos fortificados, as pessoas vão especificamente por este tipo de vinho e sabem que todos os vinhos apresentados são deste estilo. As mesmo tempo, os produtores que apresentam os seus vinhos, sabem que as pessoas presentes são pessoas que compram, vendem, servem ou escrevem especificamente sobre vinhos fortificados. Tenho aprendido muito neste evento sobre estilos de vinhos fortificados que não tinha bebido muitas vezes - sherry fresco no frigorífico durante o Verão ou Porto branco e água tónica com gelo, têm sido bebidas deliciosas.

    PtoPwine: Como vê a evolução do The b.f.t. desde a sua primeira edição? Existe um interesse crescente nos vinhos fortificados?
    AB: O primeiro b.f.t. foi organizado por Danny Cameron e teve 12 expositores e cerca de 100 visitantes. A primeira edição foi um grande sucesso e gerou muito interesse entre compradores e vendedores e o segundo ano foi muito maior. Depois de alguns anos, o evento cresceu até ao ponto em que era preciso mudar para um local maior, a Church House em Westminster. O interesse em vinhos fortificados está a aumentar mas definitivamente não são vinhos convencionais - embora devessem ser! Há mais bares de xerez e bares de tapas que servem xerez em Londres do que há 10 anos atrás e estão a começar a aparecer bares e restaurantes especializados em vinhos do Porto. Esperamos que, ao tornar mais fácil aos proprietários de bares e restaurantes o conhecimento de produtores, estejamos a fazer a nossa pequena contribuição para ajudar ao crescimento do interesse do consumidor nos vinhos fortificados.

    PtoPwine: Quais as perspectivas para a edição de 2019?
    AB: Em 2016 o evento foi organizado por Ben Campbell-Johnston que, infelizmente faleceu no final desse ano e o b.f.t. acabou por não se realizar em 2017. Tenho a forte convicção que os vinhos fortificados devem continuar a ter o seu próprio espaço, onde consumidores e compradores podem aprender mais sobre estes vinhos especiais e, com sorte, poder continuar com este legado do Ben. O evento é relativamente pequeno, com aproximadamente 40 produtores que apresentam cerca de 200 vinhos para cerca de 400 visitantes. Este tamanho é perfeito, pois permite que o programa seja relativamente intimista e que produtores e visitantes passem bastante tempo juntos. Estamos a trabalhar intensamente para em 2019 aumentar o número de comerciantes de vinhos independentes e os operadores de comércio que visitam o evento estão a considerar a possibilidade de incluir um mixologista que possa mostrar aos visitantes a versatilidade destes vinhos em cocktails, mas não estamos a planear aumentar muito mais o tamanho do evento.

    Os nossos agradecimentos a Alex Bridgeman e o maior sucesso para o The b.f.t..

©Hugo Sousa Machado

    
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