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terça-feira, 19 de outubro de 2021

Douro, the 2021 harvest, a first hand testimony

 EN/PT

The word to the producer himself...

Quinta do Noval: vine in the "Renova" vineyard.

    A lucid and updated testimony of the wine country, that highlights not only this year's harvest (many) difficulties, but also points out the main current and future problems of the Douro region, by Alexandre Antas Botelho, a traditional Douro wine producer (Noble & Murat).

    "The 2021 harvest was one of the most challenging vintages I've ever participated in. 

    At the end of August, substantially different grape maturation levels could be found in the vineyards, from grape variety to grape variety. I happened to do maturation controls in old vines, in which next to grape bunches with 11,5 % alcohol potential content, there was another one with the grape bunches just coloring.

   In early September, with favorable weather, these imbalaces  came to attenuate, although grape potential alcohol content levels remained low.

    The truth is that, as the month of September advanced, the weather conditions proved unstable, with frequent rain and falling temperatures, which gerenally postponed the harvest date in order to obtain musts with the desired/convenient alcohol graduation levels for Port and D.O.C. Douro wine vinification.

    With the advance of September and the continued and frequent rain periods, the scenario of the appearence of rot in the grapes became more and more present, and by this time it was obvious that it might be better to guarantee the fruit in its existing state than loosing the bet on a latter harvest.

    In this way and as a conclusion, I retained the following points:

  • Relatively late harvest, taking into account the trend that has been registered in the last decade;
  • A lower alcohol content when compared to recent years, for musts made before and after the rain;
  • An excellent acidity of the musts harvested before the rain;
  • More difficulty in obtaining generous concentrated musts this year, as they require more extraction work and more grape spirit to raise the alcohol level (the grape spirit dissolves the must);
  • The accentuation of the labor crisis in the Douro. The need arose to pay more for the workday to be able to place the production in the wine cellars. It is essential to find mechanical harvesting solutions and seriously think about the sustainability of the Douro wine region. To what extent will this commercial and economic model be sustainable in the short/medium term (low prices and cheap wine / attempt to implement mass tourism / property speculation now also extending to the Douro villages / lack of employment and low wages). The Douro demarcated wine region is suffering from accelerated human desertification.".

Note: the responsability for the translation and the text highlights is ours.


Douro, a vindima de 2021, um testemunho em primeira mão
A palavra ao produtor, ele mesmo...

    Um testemunho lúcido do país vinhateiro que destaca, não só as (muitas) dificuldades da vindima deste ano, mas também os principais problemas actuais e futuros que a região enfrenta, por Alexandre Antas Botelho, produtor tradicional do Douro (Noble & Murat).

    "A vindima de 2021, foi das vindimas mais desafiantes em que participei.

    Nos finais de Agosto podia encontrar-se nas vinhas níveis de maturação substancialmente diferentes de casta para casta. Aconteceu-me fazer controlos de maturação em vinhas velhas onde, ao lado de cachos com 11,5 de álcool provável, havia outra videira com cachos a acabar de pintar.

    No início de Setembro, com tempo favorável, esses desequilíbrios vieram a atenuar-se, embora os graus alcoólicos prováveis se tenham mantido baixos.

    A verdade é que, com o avançar de Setembro, as condições meteorológicas se foram revelando instáveis, com chuva frequente e descida das temperaturas, o que foi adiando a data da vindima de maneira a conseguir obter mostos com a graduação desejada/conveniente para a vinificação tanto de vinho do Porto como de Douro D.O.C..
    Com o avançar de Setembro a a continuação dos períodos frequentes de chuva, um cenário de aparecimento de podridão tornou-se cada vez mais presente, sendo por esta altura óbvio de que poderia valer mais garantir a fruta no seu estado existente do que perder uma aposta numa vindima tardia.

    Desta forma e em jeito de conclusão, retive os seguintes pontos:
  • Vindima relativamente tardia, tendo em conta a tendência que se vem registando na última década;
  • Teor alcoólico mais baixo comparável com os anos recentes, para mostos feitos antes e depois da chuva;
  • Excelente acidez dos mostos colhidos antes da chuva;
  • Mais dificuldade em obter mostos generosos concentrados neste ano, visto requererem mais trabalho de extracção e mais aguardente para subir o grau alcoólico (a aguardente dissolve o mosto);
  • Acentuar da crise de mão de obra no Douro. Surgiu a necessidade de pagar mais a jorna para poder colocar a produção nas adegas. Torna-se essencial encontrar soluções de apanha mecânica e pensar seriamente na sustentabilidade social do Douro. Até que ponto este modelo comercial e económico será sustentável a curto/médio prazo (preços baixos e vinho barato / tentativa de implementação de turismo de massas / especulação imobiliária extensível agora também às aldeias / falta de emprego e salários baixos). A região demarcada do Douro está a sofrer de desertificação ecelerada.".

Nota: a responsabilidade pelos destaques do texto é nossa.

© Hugo Sousa Machado

Previous Douro harvest reports / Relatórios de vindimas no Douro anteriores:

Douro, the 2020 harvest general report

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Noble & Murat, como nasce um vintage clássico

ou a composição de um Porto vintage
PT
Quinta do Bragão, Celeirós do Douro: a adega da Noble & Murat.
    O mais recente produtor de vinho do Porto, mas apenas aparentemente ou formalmente. Existe uma experiência, um conhecimento e uma ligação de muitos anos à viticultura, à produção de vinhos e ao Douro que são determinantes para a qualidade dos vinhos produzidos, como já demos conta em publicação anterior (Noble & Murat, an historical Port wine brand reborn).  

    Há um compromisso assumido e evidente com a produção de vinhos do Porto de categorias especiais de qualidade superior, vinhos naturais, autênticos, sem artifícios, com identidade e carácter, vinhos do Porto sérios, cuja consistência o futuro certamente assegurará. 

O coração dos vinhos do Porto da Noble & Murat

    A adega da Noble & Murat localiza-se na Quinta do Bragão, no limite de Celeirós do Douro, em pleno vale do Pinhão, na margem direita do rio (daqui avista-se a Quinta do Fojo, a Quinta do Passadouro, a Quinta da Manoella, a Quinta do Silval e mais ao longe a Quinta do Noval). Uma adega com um ambiente típico e o raro charme que é uma das expressões das adegas tradicionais do Douro.

    É aqui, no vale deste rio, que as famílias de Alexandre Antas Botelho e António Borges Taveira, os sócios da Noble & Murat, têm as suas raízes e uma longa tradição de séculos, desde o século XVI, de produção, comercialização e exportação de vinho. Podemos dizer com propriedade, que o Douro está na alma desta casa e se reflecte nos vinhos do Porto que produz. Um projecto intimamente ligado às raízes vitivinícolas do Douro.

    É importante ter presente que, no Douro, a produção vitícola é realizada, fundamentalmente, através de duas formas, por um lado as quintas e por outro as vinhas ou parcelas de vinha isoladas. Consideremos que, com excepção dos grandes produtores, proprietários de várias quintas no Douro, quem explora uma quinta conta com as vinhas e uvas dessa produção, com características próprias mas, apesar de tudo, com uma menor margem de escolha em diversidade do que aqueles produtores que têm à sua disposição vinhas com diferentes localizações, com particularidades distintas, com vinhas velhas e outras vinhas com diferentes idades e variedades de castas, localizadas a altitudes, em condições climáticas e com exposições solares diversas. Todos estes factores, antes de mais, permitem ao produtor maiores possibilidades e variedade de escolha e vão conferir uma maior riqueza, complexidade e longevidade aos vinhos, como perceberemos ao longo deste texto.

    A Noble & Murat produz vinho do Porto com base em 6 vinhas, 3 das quais são propriedade dos sócios da firma, com localizações privilegiadas e diversas no vale do Pinhão e no vale do Tedo (sub-região do Cima Corgo), com um intenso trabalho de campo para acompanhamento e controlo constante.



    O processo de vinificação e produção é tradicional e inteiramente manual, entendido e assumido como o método que mais respeita as uvas e o terroir.

    Após a escolha e selecção, as uvas são vinificadas separadamente, num processo de vinificação "à antiga", com algumas particularidades importantes e dignas de destaque, para compreendermos não só os vinhos, mas também a filosofia deste produtor.

    Como dissemos, o produto das vinhas é vinificado em separado, com o recurso exclusivo à pisa a pé, em pequenos lagares com lajes de xisto e granito, com um elevado rácio homem por pipa no lagar, o que acaba por ter uma enorme influência no vinho. Para percebermos melhor a raridade e sentido deste processo, num lagar com uma dimensão aproximada de 5 x 5m, as uvas são pisadas por cerca de 24 a 26 pessoas e nos lagares mais pequenos, com uma dimensão aproximada de 2,5 x 3m por cerca de 15 pessoas. Mais do que uma equipa, uma família que todos os anos faz este trabalho em conjunto.

    As uvas são vinificadas com o engaço, o que envolve mais trabalho, mas que é um método decisivo para a qualidade final e carácter destes vinhos. A fermentação com engaço permite a absorção do calor e contribuí para o controlo da temperatura durante a fermentação e ajuda ao arejamento das leveduras nativas, conferindo o chamado "tanino verde", a acidez do engaço vai traduzir-se em tanino e aroma e é um factor fundamental para a longevidade dos vinhos. Há também muito trabalho manual nesta fase, por exemplo, quando a manta sobe é trabalhada manualmente com os tradicionais macacos(1) durante toda a fermentação.

    Mais uma das especificidades do processo de vinificação aqui praticado, está na qualidade da prensagem, com a utilização de uma antiga prensa (uma prensa "FAS" forrada a inox que extraí até à última gota e o engaço sai seco). Os produtores defendem que uma boa prensagem vai conferir a extracção e corpo necessários, que o mesmo é dizer, côr e tanino ao vinho. Um lagar completo será equivalente a cerca de uma prensa e um quarto. Este "vinho de prensa" integra depois o vinho restante saído dos lagares.

    Outra das particularidades e que constituí um dos segredos da casa é o procedimento de fortificação do vinho, com a finalidade de obter uma melhor integração e homogeneização da aguardente vínica com o vinho, para conseguir uma maior preservação dos aromas e da estrutura do vinho do Porto.

    Após a vinificação separada de cada uma das vinhas, o vinho resultante é mantido individualizado em tonéis, para acompanhamento da sua evolução e qualidade e avaliação do potencial para Porto vintage.



    As vinhas, a selecção de uvas e os métodos de vinificação são exactamente os mesmos para os vinhos do Porto Late Bottled Vintage e para os Porto Vintage da casa. Aqui o LBV é de estilo tradicional, não filtrado, mais estruturado e encorpado e é literalmente um vintage engarrafado mais tarde. À saída do lagar é feita uma triagem e o destino do vinho é determinado nesse momento. Naqueles anos em que não é produzido vintage, o vinho é praticamente todo destinado ao LBV da casa.
    Algum do vinho produzido em cada ano é também reservado para um envelhecimento mais prolongado em madeira que dará origem a um Tawny colheita (tonel 11) e também algum é conservado para um Tawny de idade.

composição de um Porto vintage clássico
Compreender os elementos da assemblage de um Porto vintage 

    Em bom rigor, o vinho do Porto vintage, um vinho de qualidade excepcional, produzido em pequeníssimas quantidades, com as melhores uvas de uma só vindima, num ano de condições perfeitas e que é a suprema expressão do vinho do Porto, num determinado sentido é também um vinho de lote, não no sentido de ser constituído por um lote de vários vinhos com diferentes idades de envelhecimento e com origem em várias colheitas, como é o caso dos Porto tawny com indicação de idade, mas sim um lote de uvas seleccionadas de uma mesma vindima ou colheita e de acordo com o perfil que se pretende obter.     
    Na Noble & Murat existem 6 lotes que são o resultado de uma selecção de uvas de 6 vinhas, de 6 terroirs com características distintas e muito específicas e com diferentes perfis e é o resultado da prova e avaliação destes 6 elementos que aqui daremos conta.
    Tivemos a oportunidade e o gratificante privilégio de provar e conhecer estes vinhos, uma experiência estimulante e que torna mais completa a compreensão da essência de um vinho do Porto vintage.
    Os nossos agradecimento a Alexandre Antas Botelho e à Noble & Murat pela abertura a uma prova normalmente apenas acessível a quem está envolvido na produção do vinho da casa.

    Passemos então a considerar os elementos que integram a composição do mais recente vintage clássico, o Noble & Murat vintage Port 2016.
    Os vinhos são mantidos em cubas e tonéis durante cerca de 2 anos.

     O 1.º elemento da cuba 8 (as cubas com uma capacidade de 5000l)
   Proveniente de uma vinha muito velha no vale do Tedo. Um vinho em que dominam os aromas primários, com fruta fresca, intensa e evidente, terroso e com muita madurez.

    O 2.º elemento, do tonel 7 (os tonéis são de castanho, com capacidades variáveis, entre os 5500l e os 7000l)
   Com origem noutra vinha velha do vale do Tedo. Um vinho notoriamente mais ácido e taninoso, com um nariz ainda fechado, onde sobressaí a fruta vermelha.

    O 3.º elemento, do tonel 8 
    Com origem numa vinha de Covas do Douro. É a amostra "cheirante", um vinho muito aromático e muito exuberante, mas com menos estrutura e menos comprimento quando comparado com os vinhos anteriores. Podemos dizer que nesta amostra, para além das notas descritas, faltam as características das amostras anteriores.

    O 4.º elemento, do tonel 9
    De uma vinha velha no vale do Tedo. É uma amostra mais complexa. Tem como notas principais ser um vinho meio-seco, que inicialmente parece doce mais que depois é cortado por uma secura evidente, um vinho mais equilibrado. Aqui percebe-se o conceito de uma vinha superior, se só houvesse uma quinta, este seria o vintage de quinta, um vinho que vale por si só.

    O 5.º elemento, do tonel 10
    De uma vinha de vale de Mendiz. É um vinho base, muito completo, com muita côr e muito encorpado, é exuberante, com muito aroma, terroso e com uma boa acidez, um vinho mastigável, impressivo, rugoso, bruto e mais completo, que se destaca também pelo comprimento dos taninos.

    O 6.º elemento, da cuba 11
    De outra vinha de vale de Mendiz e de uma vinha no vale do Tedo. Esta última com a particularidade de se tratar de uma vinha única de touriga nacional, com origem num clone(2) único desta casta (uma excepção à predominância no Douro do clone de touriga nacional proveniente da Quinta do Ataíde). É um vinho muito floral e exuberante na boca, fino e com pouca acidez.



    O resultado final será o Noble & Murat Vintage Port 2016. já aprovado pelo IVDP, no passado mês de Maio, logo após a nossa visita, num ano clássico de Porto vintage. Este vintage tem como notas principais, um nariz exuberante, com aromas florais e também com o caractér da fruta vermelha e preta, com uma excelente estrutura, boa acidez e um final meio-seco. É um vintage mais elgante e aromático quando comparado com o vintage 2015 da casa, que é mais austero e estruturado.
    Deste Porto vintage, serão engarrafadas 3000 garrafas, o vinho restante será engarrafado como Porto LBV 2016.

    Do património da Noble & Murat provamos ainda outros vinhos dignos de nota:
    O tonel 11: um ensaio, em estudo para avaliar a evolução do longo estágio em madeira e o destino final, o futuro desta promessa, provavelmente um tawny de idade. É composto por uma grande diversidade de origens (9), um lote constituído por vinhos das colheitas de 2012 a 2014, onde para além da fruta já se nota a presença da madeira, é complexo e elegante, com aromas e sabor de cereja, ginja e fruta cristalizada.

    E um vinho do Porto raro, especial e original, uma cortesia de Alexandre Antas Botelho. Um vinho com origem numa vinha muito velha, pré-filoxérica, em pé franco e que já não existe, uma vinha que crescia em goblet (videira arbustiva não embardada), com cerca de 60% de castas tintas e 40% de castas brancas. Tem a particularidade de ser um vinho novo feito de uma vinha muito velha. Provar este vinho é realmente um momento histórico e irrepetível. É um vinho original e extraordinário, com uma côr ligeiramente aberta, muito químico, com um nariz de fruta vermelha, fino e elegante e com acidez e fruta presentes.



No portfolio actual da Nobel & Murat:
  • Noble & Murat Reserve Port
  • Noble & Murat 10 Year Old Dry White Port;
  • Noble & Murat LBV 2012;
  • Noble & Murat LBV 2014;
  • Noble & Murat Vintage Port 2015 (6600 garrafas produzidas);
  • Noble & Murat Vintage Port 2016;
  • Noble & Murat Vintage Port 2017;
  • Noble & Murat Porto Tawny 20 anos

    Noble & Murat
    Alexandre Antas Botelho e António Borges Taveira
    Telm.: +351 96 327 42 50
    noble.murat@gmail.com


   

Notas:
    (1) Macaco: um utensílio de madeira, com cerca de 1,5m de comprimento, que na parte inferior tem fixadas em cruz pontas também de madeira. É utilizado pelos lagareiros, durante a fermentação, perfurando a manta, obrigando a matéria sólida a descar para o fundo do lagar. Pretende-se que o mosto recomece a fermentar com as cascas das uvas tintas, no intuito de lhes retirar o máximo de matéria corante e taninos (in, Dicionário Ilustrado do Vinho do Porto, de Manuel Poças Pintão e Carlos Cabral).

    (2) Clone: é obtido pela multiplicação vegetativa de uma única planta, para conferir ou reproduzir as mesmas características noutras vinhas a partir desta. As vinhas são muito adaptáveis, reagem em função das condições ambientais com comportamenos diferentes (resistência às doenças, amadurecimento das uvas, cachos mais ou menos compactos e ligeiras diferenças nos aromas e sabores) o que tem como consequência existirem muitas variantes na mesma variedade, que não origina uma nova casta, mas uma subdivisão na casta. Utilizam-se clones para replicar características específicas de uma casta.

©Hugo Sousa Machado

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